Comportamento/Economia/Política/Vida

A respeito da demissão de Soninha

Assisti o vídeo de João Doria demitindo Soninha, e apenas essa frase bastaria para dar a exata noção do absurdo em que estamos mergulhados, mas escreverei outras frases além dessa.

Que a administração de Doria tenha decidido fazer o vídeo de uma demissão, e depois divulgá-lo publicamente, é atitude tão insana e cruel que talvez contenha em si traços de sociopatia, mas não sou psicanalista para ir tão fundo nesse terreno então deixo que especialistas o façam.

A imagem de Soninha escutando o patrão falar a respeito dela, cabeça baixa e olhar entristecido, é uma com a qual quase todos nós podemos nos solidarizar. Quem já foi demitido sabe o tipo de pancada moral que vem com o ato.

Já é humilhante se acontece em uma sala fechada que contenha apenas seu chefe e você, mas que isso seja executado publicamente é acrescentar sadismo à humilhação.

A norma do bom administrador manda que se demita com elegância, e que se abuse de elogios ao funcionário que está prestes a perder o emprego. Doria estava apenas seguindo o livro da boa demissão, uma espécie de documento sagrado nesse universo corporativo. Só que, por motivos grotescos, escolheu fazer isso publicamente.

Sempre que penso na cartilha da boa demissão lembro de filmes da máfia que mostram o mafioso de menor calibre sendo fartamente elogiado antes de ter seu crânio dilacerado por um taco de baseball ou por uma bala.

A imagem de Soninha apequenada é a ilustração de todo e qualquer ser humano subordinado a um sistema de poder. Reduzida a um fragmento de si mesma, ela aceita o que diz o patrão e ao final, no derradeiro golpe da submissão, agradece.

Conheço Soninha, e ainda que não compartilhemos das mesmas crenças políticas sei que é uma mulher forte e cheia de boas intenções, mas o mundo corporativo, esse que Doria importou para a esfera pública, suga a alma até dos mais fortes.

Se Soninha acha que o caminho para um mundo mais justo é pela direita e eu acho que é pela esquerda não vem ao caso. O que o episódio de sua demissão mostra em cores brutalmente fortes é a crueldade do mundo corporativo, esse que o eleitor paulistano decidiu transplantar para a administração da cidade.

A tirania privada, imposta por corporações, atua para impedir que o funcionário questione estruturas de autoridade. Para mantê-lo apequenado faz uso de sistemas de dominação que levam o trabalhador a acreditar que aquela autoridade sobre ele é necessária e benevolente, no sentido de ser exercida para o próprio bem do funcionário.

Todo mundo que já trabalhou em uma grande empresa sabe que elas funcionam de forma tirânica, com um grupo pequeno de homens mandando em dezenas, centenas de outras pessoas, submetendo-as a regras criadas e impostas por meia dúzia deles e que, se desobedecidas, levam à demissão.

É a ideologia que indica que ética é obedecer a um conjunto de condutas estabelecidas e reguladas pela empresa, e não o exercício da consciência e da liberdade.

Doria levou esse conceito tirânico para a arena pública (em sua defesa, ele nunca escondeu que faria isso, e foi eleito para isso), e agora trabalha com a espetacularização da administração pública.

Soninha foi um meio útil para que ele mostrasse ao Brasil como é um patrão elegante e cheio de doçura, inclusive para demitir. Tudo pela performance, é o recado que ele quer passar.

Vendo a vexação pública de um ser humano, seu eleitorado, em deleite, aplaude mais ou menos como aqueles homens e mulheres aplaudiam os leões que devoravam cristãos em Roma.

A respeito da demissão li comentários do tipo: “essa não gostava de trabalhar”, “queria apenas o bem bom e o salário, não queria acordar cedo”, “não curtia acordar as cinco da manhã essa aí. Boa, prefeito!”

Escondida na aparente doçura de Doria, mas amplamente revelada nas expressões faciais e corporais de Soninha, mora toda a opressão e a coerção a que ela estava sendo submetida.

Não vou nem abordar o alto grau de machismo na retórica de Doria, usando palavras como “força” e similares para explicar as qualidades que faltam a Soninha e que ele julga necessárias à função.

Soninha, de forma grotesca, se livra dessa máquina criada por João Trabalhador, que submete seus secretários a longas jornadas e tenta, com a ajuda da mídia amiga, transbordar o conceito de que o trabalho em excesso enobrece. Nada poderia ser mais cruel.

O ser humano, qualquer um, não foi feito para trabalhar 50, 60 ou 70 horas por semana. A partir desse excesso nascem necessidades como o uso de drogas, o desejo de escapar da dor e da falta de dignidade diante do tubo da TV ou do computador, o apetite por anestesias sejam elas quais forem, o isolamento social.

Nem sei se o ser humano foi feito para trabalhar para outros seres humanos ou se não estamos aqui apenas para criar, produzir, compartilhar, colaborar e ser proprietários das coisas que produzimos.

Mas falar a respeito desse tema assusta porque fomos condicionados a acreditar que quem pensa assim é maluco, comunista, vagabundo, preguiçoso.

É a plasticidade da mente humana: pessoas são facilmente condicionadas a um comportamento adequado à manutenção do sistema, e manter o sistema interessa a poucos homens, só que esses poucas homens têm 100% do poder, incluído aí governos, os canais de comunicação e demais corporações.

Trata-se do condicionamento operante clássico: aplicar estímulos condicionantes em um organismo, e a resposta é o comportamento desejado. Quem faz isso? A propaganda, ou seja: noticiário e publicidade. São os pilares em que Doria se apoia para vender a ideia de que está arrebentando como prefeito.

Na forma como eu vejo as coisas uma sociedade não deveria ser formada em torno da competição e do lucro, mas em terno de conceitos como amor, afeto, comunidade, colaboração.

Infelizmente a forma como eu vejo o mundo não é muito popular em uma cidade que levou ao poder um gestor que pensa radicalmente diferente, que acha que lucro e enriquecimento são dois valores sagrados e que devem ser alcançados a despeito dos mutilados que ele vai deixando pelo caminho durante a jornada.

Soninha é apenas mais uma das vítimas colaterais na travessia rumo ao sonho maior do CEO. Haverá outras humilhações públicas porque no universo corporativo reduzir o ser humano a pó em nome de uma suposta eficiência leva o título de boa gestão.

5 pensamentos sobre “A respeito da demissão de Soninha

  1. Pingback: O inferno do trabalhador americano, terceirizado há décadas | Blog da Milly

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