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Em defesa do caos

O segredo mais bem guardado do Capitalismo se chama conflito de classes. Sempre que o conceito ameaça ganhar a superfície, é imediatamente ridicularizado e bombardeado por preconceito.

Faz sentido. Se a classe média acabar entendendo o que ele significa o sistema desmorona de dentro para fora, então é natural que o poder econômico trate de mantê-lo longe do nosso alcance. “Isso não existe”, “É coisa de comuna”, “É tentativa de jogar uns contra os outros”, grita o sistema quando escuta falar em “conflito de classes”.

O oxigênio do capitalismo é justamente a tensão entre as classes, e para que não tomemos conhecimento disso as instituições tratam também de evitar que o homem que popularizou a ideia seja reconhecido como um dos maiores filósofos da humanidade: Karl Marx.

Mas para o professor de econômica Richard Wolff, o fato de o trabalhador não ter consciência de que ele trabalha produzindo um excedente do qual não se apropria não quer dizer que isso não tenha enorme importância em sua vida.

O conflito entre empregador e empregado está inserido na base do capitalismo: o interesse do empregador é o lucro, o do empregado o salário. São interesses radicalmente opostos, e é uma contradição que está na raiz da cadeira produtiva — onde a tensão nasce.

Para Marx, o desenho de uma sociedade se dá a partir da forma como ela distribui o excedente do que é produzido pelo trabalhador – ou seja, como distribui aquilo que ele ou ela produz além do que custa o salário dele ou dela: é isso o que, dentro de um determinado arranjo social, molda a cultura, as relações, a arquitetura etc.

Wolff explica que para manter o trabalhador na ignorância de conceitos tão fundamentais como esse é importante criar uma linguagem que ajude as instituições. É assim que se usa dizer que o empregador “dá” o emprego a você, deixando implícito que ele faz por você mais do que você por e e, quando a relação é justamente a oposta.

Se o trabalhador soubesse disso ele se revoltaria, então, segue Wolff, o trabalhador é levado a acreditar em coisas como: o capitalista arriscou seu dinheiro nesse negócio, ou: o capitalista é um homem mais inteligente do que você.

Quem faz essa doutrinação? Os institutos que formam uma sociedade: escolas, universidades, corporações de mídia.

O que Marx chama de excedente fica nas mãos dos proprietários dos meios de produção, que decidem como ele será distribuído dentro de uma sociedade; e boa parte dele é usado para manter essa máquina funcionando e para comunicar a ideia de que o Capitalismo é benevolente e eficiente.

Para fazer isso, parte desse excedente é dado a Governos, que têm papel fundamental na manutenção do sistema.

Outra parte vai para bancos, para advogados, para publicitários, acionistas e para quem mais precisar receber esse extra a fim de ajudar a manter o capitalismo intacto e respirando.

Quem também recebe esse excedente são os chamados gerentes, pessoas que supervisionam o trabalho. Wolff lembra que se o gerente é pago com o excedente quem está pagando o gerente é o trabalhador. Trata-se de um sistema tinhoso, dentro do qual somos levados a bancar nosso opressor.

Sendo uma parte do excedente destinado a governos, fica claro que as polícias são sustentadas por esse jogo, e que elas existem, portanto, para deixar o sistema inalterado.

Num mundo a cada dia mais desigual, um dentro do qual a classe oprimida começa a perceber como essas relações de produção acontecem, é preciso equipar muito bem as polícias a fim de fazer com que elas não deixem o poder econômico exposto à crescente fúria do povo.

Talvez porque essa consciência esteja emergindo um restaurante que existe há mais de 20 anos em São Paulo, e que se chama Senzala, tenha apenas agora gerado revolta e ira.

Mas sempre que uma faísca de consciência ameaça fazer fogo entra em cena a polícia, que dá segurança ao poder econômico calando a massa na porrada.

Enquanto as coisas não forem alteradas na raíz assistiremos a polícia tratar o povo como inimigo, a despeito de serem esses mesmos policiais vítimas do arranjo: se eles vierem a entender como o sistema nasce do conflito entre classes, entender como são usados para mantê-lo, e como são igualmente oprimidos, deixariam de fazer o que fazem, tirariam seus capacetes e se colocariam ao lado das massas.

De tempos em tempos, quando existe um vislumbre das regras sórdidas do jogo, o povo toma as ruas e enfrenta as instituições que, aterrorizadas, aumentam a munição que visa nos manter controlados – mídia, novas legislações, cassetete. É o que estamos vendo acontecer.

Justamente por isso o governo Temer precisa correr com reformas, que, permitindo que mais dinheiro seja distribuído às instituições que mantém o sistema vivo, acentuarão a doutrinação, nos devolverão à ignorância e devidamente oprimidos.

Não ao acaso a primeira reforma imposta foi o congelamento da verba destinada à educação pelos próximos 20 anos.

É muito importante para a classe dominante que sigamos na ignorância, e eles não economizarão em táticas de controle para isso, sejam elas executadas mídia, pelo governo ou pelo cassetete.

Tudo para nos conduzir a um lugar dentro do qual trabalharemos mais, nos endividaremos mais, teremos ainda menos tempo para o lazer, menos tempo, ou vontade, para estudar, para ler, para refletir, aprender, entender. Com as reformas trabalhista e da previdência eles alcançarão esse objetivo. E tudo voltará à paz.

Por isso não podemos querer paz agora; ela significaria o nosso fim. A hora pede caos, pede resistência, organização, união. Caos é transformação, e temos nas mãos uma enorme chance de começar a transformar todas as coisas.

4 pensamentos sobre “Em defesa do caos

  1. Olá Milly,
    Curto muito seus textos, assim como curto os vídeos do Richard Wolff.
    Você poderia deixar os links de vídeos, artigos ou livros do Richard Wolff de onde vocês tirou os trechos citados neste texto.
    Grato

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    • Oi, Leandro. Obrigada, e que bom que você frequenta o Wolff. Entra no site dele e acessa o curso de teoria marxista. Acho que são 4 ou 5 aulas. Me diz se não encontrar 🙂
      Abraço
      Milly

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  2. Pingback: Por um mundo no qual trabalhemos menos | Blog da Milly

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