Comportamento/Economia/Política/Vida

Por um mundo no qual trabalhemos menos

Estamos debatendo apaixonadamente o que o governo chama de terceirização do trabalho, e dentro dessa discussão falamos de carga horária, de benefícios e de segurança. Não achamos correto que a carga horária passe de 8 para 12 horas, não achamos correto que o trabalhador perca benefícios como 13º, férias, licença maternidade, tampouco achamos certo que ele ou ela possa perder o emprego da noite para o dia e tenha que sair de mãos abanando. Nada disso parece de fato correto, embora governo e mídia, em um dueto macabro, tentem nos convencer de que tudo está sendo feito para o nosso bem.

Mas há uma outra discussão importante, e ela diz respeito à qualidade do trabalho que trabalhamos hoje.

Políticos como Doria e Temer seguem tentando vender o conceito de que a nobreza de caráter está em trabalhar sem reclamar e sem parar, em nome de um país melhor, e não há nenhum grande veículo de comunicação que grite que dizer isso é uma crueldade.

O povo, esse de quem agora se exige mais trabalho “a fim de nos tirar da crise”, não é responsável por crise nenhuma. A crise, que é mundial, foi criada justamente por homens como Doria e Temer, que agora usam os canais de mídia para uivar: trabalhem, trabalhem!

O discurso político que envolve o culto ao trabalho é doentio e quer apenas nos manter escravizados. Toda forma de controle que não se justifica faz uso a ideia de que ela está sendo exercida para o nosso bem e que, sendo assim, devemos apenas seguir a instrução de homens que sabem mais, são mais inteligentes e capazes.

É o que está implícito nesse golpe, cujos desdobramentos são desaprovados pela maioria: o povo não está gostando, mas o povo pouco sabe. Nós, os homens cultos e educados, é que sabemos o que é melhor para essa gente.

Então a gente repete: trabalhem! Trabalhem mais, trabalhem mais horas, trabalhem mais dias, trabalhem em condições piores, com salários menores, sem segurança, sem benefícios. Apenas trabalhem porque é trabalhando que você vai chegar lá (chegar onde é omitido porque o “onde” é, claro, a cova).

O que distingue o ser humano dos demais animais é a capacidade criativa, essa que o trabalho mecânico executado muitas horas por semana nos impede de desenvolver.

Talvez o seu caso não seja exatamente esse, mas é certamente o da maioria dos brasileiros, de cortadores de cana a operários, passando por domésticas e por todo o tipo de homem e de mulher que dependa de um salário para sobreviver, pessoas privadas da própria humanidade.

O conceito de trabalho precisa envolver mais do que economia, precisa ir além do do que o Financial Times entende por trabalho. Uma sociedade decente forma seres humanos e não apenas acionistas e operários.

Trabalho precisa envolver a capacidade criativa de cada um de nós, auto-realização, prazer, gênero, sexualidade, afeto, solidariedade, comunidade. Trabalhar não deveria ser apenas executar qualquer tarefa, por mais repetitiva, em troca de um pagamento no fim do mês.

Trabalho compreende a forma como nos tornamos humanos, como nos relacionamos uns com os outros, compreende paixão, aptidão, talento. Qualquer trabalho que não envolva essas coisas vai transformar o homem em meio e não em fim, em coisa e não em ser humano.

Trabalho deveria ser apenas uma pequena parte de nossas vidas, porque o ser humano precisa de tempo para lazer e ócio e convívio, e a forma como trabalhamos hoje leva qualquer um de nós a correr para nos dopar e nos alienar às primeiras horas de folga. Exaustos, nos curvamos ao entorpecimento, ao isolamento e a qualquer porcaria que a TV exiba.

Um sistema baseado no capital, na competição e no acúmulo, e que tortura o planeta e a maioria das pessoas que nele vive em nome desse trinômio, não suporta a Liberdade individual.

Então, antes que comecem a gritar por liberdade, é preciso institucionalizar a violência, dar a ela um ar de legitimidade, e tirar de circulação a noção de que um estado que faz uso de força policial para manter as coisas como estão é um estado violento.

Tirar de circulação a noção de que o menino e a menina que acordam na comunidade para abrir a porta e enxergar um homem vestido de “Estado” com um rifle apontado para sua casa estão sendo vítimas de uma tremenda violência.

É preciso tirar de circulação a noção de que um Estado que não fornece educação e saúde aos mais carentes é um estado violento. Tirar de circulação a ideia de que um estado que faz vista grossa para sonegação e evasão, crimes praticados pelos muito ricos, é um estado que pratica a violência.

É fundamental não comunicar a ideia de que um sistema que permite que bancos lucrem como lucram, e que ao mesmo tempo perdoa a dívidas que esses bancos têm com os cofres públicos, é um sistema extremamente violento. Importante não deixar que percebam que um prefeito que corta o fornecimento de leite de crianças carentes está fazendo uso de uma violência tremenda. Ou que um sistema político que exclui o índio, e a natureza, é um sistema violento.

Mas essas noções precisam ser tiradas de circulação, e para que elas não venham à tona o estado conta com a ajuda de seu grande parceiro, a mídia.

Então é fundamental que a mídia passe a ideia de que violência é queimar ônibus, quebrar vidraça de estabelecimento privado, sair mascarado pelas ruas desafiando o poder público.

É importante comunicar a ideia de que é violento impedir trabalhador de chegar ao trabalho, mas não é violento mudar a jornada de trabalho de 8 para 12 horas, eliminar benefícios como férias e 13º, permitir que grávidas trabalhem em ambientes tóxicos.

Como se tudo isso não fosse suficientemente grotesco, os homens que nos controlam falam em nome de Deus, um Deus que está supostamente do lado do autoritarismo e da escravidão.

Espiritualidade é alimentar quem tem fome, receber o refugiado, educar todas as crianças a despeito de classe social, proteger o pobre da opressão do rico, como fez um certo profeta há dois mil anos.

É hora de ampliarmos a consciência. Não estamos aqui para trabalhar ou competir, mas para viver e colaborar. O capitalismo não sobrevive um dia sem a classe trabalhadora, mas, sem o capitalismo, a classe trabalhadora não apenas sobrevive como floresce e se liberta.

 

7 pensamentos sobre “Por um mundo no qual trabalhemos menos

  1. Excelente texto Milly, como sempre. Minha dissertação tem justamente esse tema, redução da jornada de trabalho e aumento do tempo livre. Acredito que pode ser uma política pública de geração de empregos e redução do sofrimento e alienação no trabalho. Mas, tal política se mostra incompatível com um Estado que está a serviço do capital, que necessita de miseráveis e escravos assalariados para perpetuar o sistema e seguir lucrando.

    Curtir

  2. Pingback: Um dos mais belos discursos da história | Blog da Milly

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s