Comportamento/Política/Vida

Sobre a capa da Veja

“Pão ou pães é questão de opiniães”, escreveu João Guimarães Rosa. Todo o ambiente político é, em larga escala, questão de opiniães, mas desumanidade não é questão de opiniães. Não reconhecer a humanidade no outro é apenas a maior violência que se pode cometer contra a dignidade de uma outra pessoa.

Ser de direita ou de esquerda já não importa mais, como acontece sempre que passamos a viver dentro de um estado de exceção.

O que estamos aprendendo é que há estados de exceção que podem se amparar em vestígios de legalidade e podem ser mantidos pelas instituições, que conferem a ele os rastros de legitimidade necessários para que vivamos em dúvida: será que isso aqui é mesmo um estado de exceção ou estão exagerando?

Quando não se pode convencer do contrário, fabricar a dúvida é o que basta.

Em um mundo minimamente humanizado, a despeito das opiniães, uma capa de revista como esse que chega amanhã às bancas com o logotipo da Veja (que eu me recuso a reproduzir) jamais seria permitida.

Há fronteiras que não deveríamos cruzar, e uma delas diz respeito à dor de perder alguém que se ame, porque a dor é o que é comum a todos nós e o que nos humaniza.

Todos os bandidos, por piores que sejam, amam alguém. E são por alguém amados. Você não brinca, não debocha, não ridiculariza, não ofende a maior força do universo – o amor.

Quando o filho de Geraldo Alckmin, político que eu considero um monstro, morreu em um acidente de helicóptero não havia ali espaço para ofensas, deboches, críticas. A dor de Alckmin era a dor de todos nós. Como pai, como homem, como ser humano.

Não importa mais o que se pensa a respeito de Lula. O que estamos fazendo com ele é desumano. Um julgamento ilegítimo, conduzido por um homem que não respeita as leis, e amplificado em imoralidade pelo noticiário.

E agora a capa de uma revista de circulação nacional estampa a imagem de uma mulher que já não vive mais, induzindo o consumidor de noticiário, esse pobre ser humano tratado como gado, a acreditar que, diante de Moro, Lula jogou a culpa em dona Marisa.

Lula não disse no depoimento nada além do que dizia quando dona Marisa era viva. E ainda pediu que o juiz parasse de citá-la porque ela não estava mais aqui para se defender.

Mas para saber disso é preciso assistir 5 horas de depoimento, e isso dá um puta trabalho. Mais simples é acreditar no que o noticiário vai me contar a respeito do depoimento, assim não tenho que pensar por conta própria e posso apenas repetir o que alguém viu no meu lugar.

Mas nem os fatos importam mais. Brincar com a dor da saudade é cruzar ao mesmo tempo os limites do bom gosto, da elegância, da humanidade, da decência e da moral.

Que tempos tristes.

Termino com um trecho de um dos textos mais lindos já escritos por um ser humano, de David Foster Wallace:

“O mundo jamais desencorajará você de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

“Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita”

Trata-se de um manifesto em nome da liberdade de ver os outros, uma capacidade que estamos perdendo.

28 pensamentos sobre “Sobre a capa da Veja

  1. Milly:

    Devo reconhecer, como já reconheci várias vezes, que você é uma exímia escritora, e trata da capa da Veja com desenvoltura e justiça, mas que te acompanha em bases constantes, que é meu caso. por vezes, ao ler um texto e começar a fazer conexões com outros já escritos, percebe uma recorrente contradição de sentimentos.

    Aqui, se por um lado você escreve um texto cheio de sentimentos, por outro lado na semana passada saía pregando o “caos, mártires, sangue, linchamento e repressão”, que tipo de sentimento contraditório é esse?.

    Você reclama da “mídia corporativa” dizendo ser tendenciosa, e por outro lado enaltece Glen Greenwald e seu The Intercept, que não faz nem questão de esconder sua parcialidade, muito embora faça questão de se considerar um jornalista.

    Com relação ao filho do Alckmin, não dá para esquecer da reação absurda de Luciana Genro em especial. Uma vergonha. Sempre vai ter aquele/a que vão causar espanto com sua reação a dor alheia (não estou defendendo a capa da Veja)

    Em relação a Marisa, lembro que foi Lula quem começou com essa história, fazendo do velório da esposa um palanque político eleitoral e contra a Lava Jato, por outro lado, está nas 5 horas de testemunho ele respondendo, praticamente dando com os ombros e querendo dizer “pergunte para a Marisa”.

    Chegou-se a um ponto que não há mais como ele negar os fatos e as provas, tanto ele quanto Dilma. Como você gosta de dizer, depoimento da esposa do João Santana foi “demolidor” apresentando recibos de pagamento de “governanta” para sua excelência, noves fora a história do e-mail da “IOLANDA”.

    A imprensa pode até ser tendenciosa (não concordo com isso), mas ela não fabrica provas e nem as planta. Os comentários são sobre fatos e documentos, cuja realidade a nem a mídia nem você consegue mudar.

    Por fim, te digo mais uma vez: você deveria detestar o Lula e seu PT pois eles enterraram a esquerda no Brasil por um bom tempo.

    Gosto muito dos teus textos que não falam de política.

    bjs

    Curtir

  2. Aula de Direito do dia:
    “Moro: Tem um documento aqui que fala do triplex….”
    Lula: “Tá assinado por quem?”
    Moro: “Humm… A assinatura tá em branco…”
    Lula: “Então o senhor pode guardar, por gentileza!”
    Moro: “O senhor sabe de quem é o triplex?”
    Lula : “Se o senhor não sabe, imagina eu?”

    Na aula de Introdução ao Estudo do Direito de hoje você aprendeu que:
    “A FALTA DE ASSINATURA TORNA O DOCUMENTO APÓCRIFO, NÃO POSSUI VALOR PROBANTE.” Quem lecionou esse ensinamento?
    ( ) um juiz
    (x) um torneiro mecânico

    Por Glácio Souza”

    Curtir

  3. Não entendo nada de Direito nem de leis e muito menos do que se pratica/ aplica no Brasil. Vi partes do interrogatório do Lula. Nunca o apreciei como político e até ontem tinha muitas dúvidas sobre a sua inocência. Depois do que vi ontem fiquei com mais dúvidas sobre o contraditório. O papel do juíz em todos os estados de direito é avaliar as provas. No entanto,mó que vi ontem foi um juíz parcial, partindo do princípio que o arguido é culpado. A displicência como tratou Lula usando Sr Luiz Inácio é Sr ex-Presidente são prova disso. Até pode ser que Lula seja culpado. Mas a justiça avalia provas e não interroga sobre questões acessórias. Criar a convicção sobre enriquecimento elícito sem provas é um erro. E a declaração final de Lula, metalúrgico, sem diploma universitário, que fez o Brasil ter orgulho e que elevou a classe média à sua dignidade foi comovente. Depois de ontem, seja qual for o rumo, Lula é por mim aplaudido de pé. Um beijo, Milly.

    Curtir

  4. Isso para mim não surpreende, simplesmente por já esperar uma amtitude desrespeitadora, destrutiva e desumanizada dessa revista que perdeu completamente o compromisso com a ética e a verdade. E aqui, me reporto à uma capa covarde e truculenta que esse “tablóide” vagabundo fez estampando um Cazuza muito debilitado pelas consequências do HIV sobre frase que dizia o seguinte: ” Cazuza, uma vítima da AIDS agoniza em praça pública”. Uma coisa abjeta. A jornalista que fez a matêria se demitiu alegando não saber que Veja iria tão baixo no intuito de vender revistas.

    Curtir

  5. Essa história é desumana e de um mal gosto incrível!
    Essa revista que submete seus leitores a informações que se baseiam em interpretações deliberadamente inviesadas dos fatos. Assisti todo o depoimento em questão e creio que essa revista está brincando com a inteligência de seus leitores. É um abuso e desrespeito.

    Curtir

  6. Quem não respeitou Dna Maria Letícia, foi o seu próprio marido. Este sim uma criatura abjeta e carentes de decência moral.

    Curtir

  7. Assistir 5 horas de depoimento é difícil mesmo, muito difícil. Tão difícil que você não assistiu. Acho que se baseou naquelas imagens memes das transcrições do interrogatório, que distorciam o que foi dito ou simplesmente inventavam diálogos e foram amplamente divulgadas por perfis de esquerda.

    Se tivesse assistido, saberia que todas as vezes em que a Marisa foi citada foi por iniciativa do próprio Lula. Era só o que ele respondia.

    Ao menos assista o material. Ou não se baseie em memes do Twitter.

    Curtir

    • LUCAS, assisti cerca de 4:50 que durou o depoimento e não consegui ver nada do que você falou, será que realmente você assistiu na integra ou nos blogs de direita?

      Curtir

    • RENAN, onde a distinta blogueira pede censura ? devemos ter bom senso ao escrever as coisas, um pouco mais de humanidade não faz mal a ninguém.

      Curtir

  8. Lindo o texto Milly! Deu certo alento tb ao neu coração. Esses dias, com a campanha ridícula das lojas mlojas e essa capa ordinária dessa revista, me perguntava até quando esse ódio será alimentado pelos meios de comunicação e tolerado e difundido pelas pessoas. Parece que se perdeu o bom senso, o respeito, a empatia, e a humanidade.

    Curtir

  9. Pingback: A falsa narrativa de que Lula culpou dona Marisa | Blog da Milly

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s