Comportamento/Economia/Política/Vida

“A gente mata ele antes de fazer a delação”

De tudo o que aconteceu nos últimos dias uma frase me transtornou mais do que todas: aquela em que Aécio Neves teria sugerido matar o primo antes que ele fizesse uma delação a respeito da propina que Aécio receberia.

Desde o assassinato de Celso Daniel minha ingenuidade para muitas coisas que acontecem na arena política desmoronou, mas ainda assim é dilacerante escutar coisas desse tipo.

Matar um outro ser humano. Por dinheiro. Dinheiro desviado para enriquecer um pouco mais alguém que já tem muito dinheiro. Não sei, realmente, o que essas pessoas fazem com essa quantidade de dinheiro, mas imagino o trabalho que devem ter para esconder, sonegar, desviar, guardar, evadir. Vale o esforço, meu Deus?

Também não faço ideia de quem é o tal do Fred que estaria na linha de tiro, mas certamente é alguém que é amado por outras pessoas, tem amigos, talvez tenha filhos, família… uma pessoa, por pior que ela seja, é um universo e decidir tirar a vida dela como quem arranca uma unha encravada é escandalosamente grotesco.

A frase, como colocada na transcrição, também sugere uma brutal naturalidade da ação de matar uma pessoa dentro desse violento mundo político. Fica a impressão de que matar, ou mandar matar, é quase uma banalidade.

O sistema dentro do qual vivemos, baseado no lucro, no capital, na financialização de todas as coisas, um que nos encoraja a competir e não a colaborar, um que ensina que quem não ganha dinheiro não é bem-sucedido e não tem muito valor, precisa ser questionado.

O fato de não conhecermos outras formas de arranjo social que sejam melhores do que essa não quer dizer que elas não existam.

Uma das necessidades centrais da natureza humana é engajar com outros em esforço colaborativos de solidariedade, como ensinou Noam Chomsky. Mas para isso, ele diz, é preciso que se elimine estruturas hierárquicas de dominação. E nós estamos cercado delas: no trabalho, no lar, nos relacionamentos.

Aécio representa o pior do brasileiro endinheirado: acha que pode fazer o que quiser com quem quiser, não vê limite para o acúmulo de bens e de capital, muito menos entraves morais para executá-lo.

Foi flagrado dizendo o indizível e agora sai de cena. Mas há outros como ele, muitos outros como ele. Porque, como disse Virginia Woolf, o fascismo é a derradeira expressão da hierarquia patriarcal, essa dentro da qual vivemos há séculos.

E aqui é importante definir fascismo como o ato de dominar outros seres humanos através da opressão, da coerção, da violência e do autoritarismo, estabelecendo e legitimando a superioridade de uns poucos sobre os demais.

Cito outra vez o trecho de um dos textos mais lindos já escritos por um ser humano, de David Foster Wallace:

“O mundo jamais desencorajará você de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

“Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita”

Trata-se de um manifesto em nome da liberdade de ver os outros, uma capacidade que estamos perdendo.

“Enquanto uma sociedade existir dentro da qual alguns homens estão acima de outros, e todos eles acima das mulheres, enquanto existirem essa enorme disparidade financeira e o desequilíbrio de poder o fascismo será parte do Estado e da estrutura familiar”, escreveu J. Ashely Foster para a revista Adbusters.

Se o sistema não mudar não nos livraremos dos Aécios e continuaremos a nos matar por dinheiro.

3 pensamentos sobre ““A gente mata ele antes de fazer a delação”

  1. Realmente essa parte é a mais assustadora do diálogo. Esse Aécio é um psicopata. É urgente investigarem aqueles dois assassinatos – da modelo e do policial civil – envolvidos em esquemas políticos de Minas durante o governo dele e abafados pela imprensa mineira cúmplice e silenciada por muita grana dada pela irmã Andréa Neves. E o acidente de Teori Zavascki? Não duvido de mais nada…Parabéns pelo texto.

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