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Não bastam eleições; é preciso reformar o sistema

Se você depende de um salário para pagar as contas do mês e para viver então seus interesses são os interesses da classe trabalhadora.

Se esse é o seu caso, os interesses da classe empresarial não são os seus interesses porque não há nada parecido a um interesse que seja comum a ambos.

O interesse do empresário (o patrão, o capitalista) é o lucro; o seu interesse é o salário e tratam-se de interesses opostos, radicalmente opostos. Mais salário e benefícios, menos lucro. Menos salário e benefícios, mais lucro.

É um conflito instalado na base do sistema capitalista, e não diz respeito a o patrão ser alguém ruim e você alguém bondoso, ou vice-versa; o conflito de interesses é apenas a pedra fundamental sobre a qual a sociedade atual está erguida.

As instituições brasileiras foram compradas pelo interesse do capital privado, o interesse dos Batista, dos Odebrecht, dos Marinho, do grande empresário. Se você depende de um salário para pagar as contas do mês, se você é um pequeno empresário que depende da receita do mês para pagar seus funcionários e sobreviver, o interesse dessa turma rivaliza com o seu e tudo o que for bom para eles (reformas etc) será ruim para você.

Exatamente por isso esses caras têm que convencer a nação de que estão lutando pelos interesses do povo. A noção de que o interesse deles e o da classe trabalhadora são interesses opostos não pode vir à tona.

De alguma forma é preciso comunicar a ideia de que não ter mais direito a 13º, a licença maternidade, a um tempo justo para fazer as refeições, a um limite saudável de horas de trabalho por dia são coisas que vão beneficiar você (e não o lucro deles).

Mas passar essa percepção é complicado e, democraticamente, eles não seriam capazes de nos convencer de nada disso porque há um limite para nossa estupidez.

Então eles precisam comprar o sistema político a fim de criar leis que acomodem tantos interesses impopulares, e precisam moldar a opinião pública fabricando consensos via meios de comunicação.

A narrativa fabricada pela elite econômica que controla os meios de produção, incluindo aí os de comunicação, deve nos convencer de que movimentos sindicais e qualquer manifestação feita em nome dos trabalhadores e do social está ligada aos mais ilegítimos princípios.

Marginalizar os movimentos populares ajuda a esconder que somos todos classe trabalhadora. Sem a fabricação desses consensos nós, os assalariados, acabaríamos fazendo valer nossas vontades e direitos.

Para seguir no teatro da democracia o poder econômico nos oferece a ilusão de que, de quatro em quatro anos, podemos eleger alguém que nos agrade.

Enquanto votamos eles se esbaldam com mais uma farsa instalada porque sabem que, não importa quem seja eleito, o poder seguirá sendo deles – dos Odebrecht, dos Batista, dos Marinho.

A elite econômica não suporta a democracia. Dar legítima voz à maioria seria acabar com todos os privilégios da classe dominante; é um risco enorme. Por isso eles precisam comprar as instituições.

Tudo o que estamos vendo é apenas a derradeira expressão do sistema capitalista, esse mercantilismo corporativista que preza o livre Mercado para os pobres e um estado-babá para os ricos, esses últimos merecedores de todo o tipo de incentivo federal.

Os que gritam pelo fim do Bolsa-Família são aqueles que mais têm subsídios federais. Que livre Mercado é esse em que o capital privado invadiu as vísceras do legislativo e do executivo? Como seguir defendendo o capitalismo se o sistema se desenvolveu para já não contemplar seu princípio mais básico?

Cria-se esse processo dentro do qual um volume exorbitante de capital fica girando entre a classe empresarial e a classe política apenas para que esse estado de coisas seja mantido.

Mas, diante dessa desigualdade social brutal, vai ficando difícil sustentar a ideia de que iniciativas como as reformas trabalhista e da previdência são executadas para o nosso bem. Fica difícil convencer todos nós que não há dinheiro para manter o país funcionando e que, por isso, teremos que fazer sacrifícios.

Há uma enormidade de dinheiro, mas ele está sendo usado para corromper as instituições e não pode servir o povo e seus direitos mais básicos.

Então querem transferir para todos nós a conta de uma dívida que não criamos  sobre a qual não temos responsabilidade, e já não há propaganda capaz de nos convencer que esse absurdo é correto.

Não há de verdade diferença entre os horrores de um estado stalinista e os horrores de um estado corporativista. Não há de verdade diferença entre dar todo o poder ao comissário ou todo o poder ao empresário. O poder tem que estar nas mãos do povo, do trabalhador, do assalariado.

A narrativa corporativista não está mais colando. Não queremos que uma pequena elite, capaz de comprar o sistema político em nome de seus interesses, decida os rumos da sociedade em que vivemos. Não podemos mais aceitar esse tipo de dominação, de opressão, de coerção, de autoritarismo.

Queremos ter voz outra vez. Queremos um Brasil mais justo, menos desigual, menos oprimido.

Mas para isso é preciso batalhar pela mudança desse sistema injusto, corrompido e elitista – e apenas quando o assalariado se enxergar como classe trabalhadora e não como elite poderemos transformar a sociedade em que vivemos.

6 pensamentos sobre “Não bastam eleições; é preciso reformar o sistema

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