Comportamento/Economia/Política/Vida

Joesley, um campeão nacional

Foi preciso gravar o presidente recebendo um empresário na calada da noite e negociando coisas obscuras para que entendêssemos que uma corporação chamada JBS fazia parte do legislativo e do executivo da nação. A participação, claro, tinha como objetivo os interesses econômicos do conglomerado ou, em última escala, o lucro, bônus, o acúmulo de capital.

A JBS, justiça seja feita, não é a única corporação a derramar seus bilhões nos bolsos de políticos de todos os tipos a fim de que seus interesses sejam vendidos como “os interesses da nação”. Estamos agora sabendo que somos há anos administrados pela iniciativa privada. Não apenas nós, mas boa parte do mundo também. O sistema se chama corporatocracia.

Já escrevi aqui que não há nada parecido com o “interesse nacional” dado que o interesse de Joesley, o ex CEO da JBS, é inversamente proporcional ao interesse do trabalhador que está na linha de produção da Friboi tirando as vísceras de uma vaca: Joesley quer o lucro, o trabalhador quer o salário, e o salário afeta o lucro.

É uma contradição simples, mas que, estando no cimento que molda todo o sistema, cresce com ele: quanto maior a edificação, maior o conflito que essa contradição gera, que é o famoso conflito de classes.

Os Joesleys da vida não podem assistir sentados a democracia ser praticada porque a democracia significa dar voz ao povo e o povo com voz cometeria injustiças enormes contra os Joesleys: política salarial sempre acima da inflação, mais direitos trabalhistas, taxação sobre grandes fortunas… enfim: dar voz ao povo é apavorante para os Josleys porque isso tem impacto sobre o acumulo de capital e a distribuição do bônus. É preciso então evitar que sejamos democráticos, e para isso as corporações invadem o sistema e saem comprando tudo e todos.

Em 2008, quando a ganância das grandes instituições financeiras americanas quebrou os Estados Unidos e depois o mundo as populações de todos os países culparam seus governos mais do que Wall Street ou os bancos.

Que poupemos a iniciativa privada em época de grandes crises econômicas provocadas por ela é interessante tanto para o Estado quanto para a iniciativa privada já que ambos se beneficiam da pornografia da corporatocracia. Nesse dueto criminoso, eles fazem o papel do “policial bom” e do “policial ruim”, entretendo e confundindo a todos nós.

Mas é preciso nos manter minimamente envolvidos, então de quatro em quatro anos podemos mudar quem nos governa e ter a ilusão de que estamos transformando alguma coisa de fato, quando na verdade os CEOs que mandam no mundo hoje não são eleitos pelo povo e estão bastante fechados com qualquer novo governante que venha a ser eleito, estando ele para a direita, para o centro ou para uma falsa esquerda, como foram as esquerdas de Hollande e de Dilma (a despeito de Dilma ter sofrido a injustiça de um golpe, de ter sido privada do direito de completar seu legítimo mandato).

Não há como negar que Lula foi o primeiro presidente a conseguir fazer alguma coisa pelo social – e que o que ele fez foi lindo e histórico -, mas da mesma forma que não há como negar que ele não alterou esse calamitoso estado de coisas entre o público e o privado.

Enquanto o lucro e o capital forem as duas maiores entidades do universo contra a qual não podemos sequer tentar emitir opinião crítica porque logo alguém aponta o dedo e grita “comunista” o grande empresário seguirá governando o espaço público mesmo sem ter sido eleito porque, afinal, você vai ser convencido pela máquina da propaganda (noticiário + publicidade) de que o grande empresário é um bom homem que luta pelo “interesse nacional”.

É, portanto, apenas lógico que mesmo Joesley estando afundado em um lamaçal moral e ético, mesmo tendo cometido inúmeros crimes contra o interesse do povo, mesmo tendo tramado contra uma presidente legitimamente eleita, mesmo tendo soltado bilhões para congressistas de todos os tipos, mesmo tendo arrecadado uma dinheirama do BNDES para seguir crescendo e acumulando capital, mesmo depois de tudo isso ele ainda estampe a capa de uma revista levando o selo de “um campeão nacional”.

Quem passar pelas bancas e vir o homem ali, com pose de estrela e as palavras “campeão nacional”, vai encontrar um lugar dentro de si para distingui-lo da enorme putaria. Não é preciso comprar a revista e ler a matéria: a capa cumpre uma função importante.

Quem sabe Joesley não fez o que precisava ter feito? Quem sabe ele não teve que lutar contra uma máquina perversa que suga nosso suado dinheiro com impostos? Vamos separar o público do privado, sendo o público ruim e o privado bom.

É preciso manter as corporações governando a nação, e para isso é preciso passar o recado de que a culpa por tanta sujeira não é tanto de Joesley, que, assim como você e eu, talvez seja mais uma vítima da “corrupção do PT”.

Enquanto você acreditar nisso a corporatocracia sobreviverá sem grandes baques e novos Joesleys virão aí.

Termino com a imagem da capa da Exame da semana passada:

Screen shot 2017-06-05 at 4.45.10 PM

 

6 pensamentos sobre “Joesley, um campeão nacional

  1. “Mas é preciso nos manter minimamente envolvidos, então de quatro em quatro anos podemos mudar quem nos governa e ter a ilusão de que estamos transformando alguma coisa de fato, quando na verdade os CEOs que mandam no mundo hoje não são eleitos pelo povo e estão bastante fechados com qualquer novo governante que venha a ser eleito, estando ele para a direita, para o centro ou para uma falsa esquerda (…)”. Na mosca! Numa democracia capenguíssima como a do Brasil, há quem se iluda com o tal poder do voto. Tal poder só resiste até a segunda página!

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  2. Milly, há uma ironia embutida no título que você atribuiu ao texto no qual trata sobre a ganância individual em detrimento do interesse coletivo e da pretensa justiça na distribuição dos lucros (de cada qual, segundo suas capacidades; a cada qual, segundo suas necessidades). Um “campeão nacional” dos sete pecados capitais que infestam a sociedade humana e no caso particular, a brasileira. Mas você analisa como uma questão ideológica, enquanto eu a vejo como uma questão antropológica. Há no seu texto a “crença” que as ideias são superiores à natureza do comportamento humano. Também eu, a minha época, acreditava nisto. Mas venho constrangido dizer que os pecados do capital, em seus excessos, são derivados dos nossos pecados humanos. Apropriar-se do trabalho de outrem é humano. Senão como interpretar a relação mãe-pai-filho, relação de trocas na qual a remuneração não é fator (ou não deveria, mas acontece via presentes, escolas, asilos). Acredita mesmo Milly que é uma questão institucional? Não é possível perceber que nesta peça, os atores nas coxias estão loucos para encarnar ainda melhor, o papel do ator que sai de cena? O trabalhador também quer ser patrão. Dê poder, e observe como ele o usará. Você acha que o que os molda é a ideologia? Penso que não, penso que é a natureza humana, o desejo de um caçador. O capitalismo é o caminho da natureza, o comunismo é o caminho da graça (veja o monólogo da Jessica Chastain, em a àrvore da vida), porque este último acredita em algo que não somos. Não somos racionais, somos animais dotados da capacidade de raciocinar (Eduardo Gianetti). Como somos dotados, nem todos raciocinam de modo a perceber que a união supera a individualidade. Os melhor dotados, percebem. Seja pragmatismo, seja boa vontade, podem arquitetar de modo diferente os propósitos de uma sociedade. Hoje, Joesley é campeão nacional dos nossos piores defeitos como indivíduos. Um buraco mais embaixo do que os defeitos das nossas ideologias.

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    • Tenho quase a certeza que a Milly não se oporá, Sônia. De fato o texto dela é delicioso. Gosto da fluidez e paixão com que escreve.

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