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Para escapar da ilusão

Que Michel Temer ainda seja o presidente da nação é igualmente escandaloso e insignificante. Escandaloso porque diante de todos os horrores e imoralidades associados a seu nome as pedaladas de Dilma soam como um passeio no parque durante o fim de um dia ensolarado. E insignificante porque a essa altura do rebuceteio tanto faz se ele fica ou sai já que se o sistema não mudar outros Temers e Aécios e Dorias virão.

Nesse sentido é importante que a gente entenda que o capitalismo praticado hoje no mundo é um ambiente que oferece espaço a políticos como Temer enquanto achata e ridiculariza gente como Fernando Haddad.

Aqueles que, a despeito de todos os horrores que estamos assistindo, dizem que ainda assim capitalismo é o melhor sistema justificam a afirmação alegando que o capitalismo expressa o mais fundamental da natureza humana: ganância, avareza, competição, falta de compaixão. Os defensores dessa tese acreditam que não há como lutar contra essas características, que elas estão em nossa configuração-padrão e que assim é.

É bastante conveniente que as coisas sejam colocadas dessa forma porque quando se critica o sistema a resposta é: Fazer o que? Há falhas, claro, mas a natureza humana não permite nenhum sistema diferente disso.

Não está definido que exista uma natureza humana, mas isso não é um problema para quem usa argumentos como o acima. E se existir uma natureza humana me parece bastante óbvio que qualidades como compaixão, colaboração e solidariedade são tão ou mais contundentes do que ganância, competição e avareza.

Com o passar dos anos o capitalismo foi se desenvolvendo para ir se encaixando mais e mais nessas perversas qualidades e hoje tem no neoliberalismo um movimento que enxerga a competição como característica que define as relações humanas.

O que define o comportamento do ser humano é o ambiente e se somos ensinados a competir ferozmente é o que faremos, ao passo que se formos ensinados a colaborar então colaboraremos.

A psicoterapeuta Americana Harriet Fraad explica que somos animais sociais e não sobreviveríamos sem a capacidade de colaborar. “Não somos os mais fortes, os mais rápidos mas somos os que se organizam melhor em sociedade, os que sabem compartilhar e cooperar, os criativos”.

Mas toda a forma de opressão sempre buscou ser eternizada e justificada pela “natureza humana”. A escravidão, por exemplo, era explicada como sendo apenas natural: essa é a condição, há os melhores e os piores, os que servem e os que são servidos, diziam.

Um sistema só pode ser alterado quando o grupo oprimido decide que basta. E dentro do capitalismo o oprimido somos nós, os assalariados, aqueles que passam a vida lutando para ganhar mais mesmo sabendo que o lucro do empresário, essa entidade que rege todo o sistema, depende justamente do fato de ganharmos menos.

Ao nos transformar em peças descartáveis de uma engrenagem que visa apenas o lucro o capitalismo aniquila a criatividade da maioria, e somos pouca coisa além de bichos sem o poder de exercer nossa criatividade.

Recentemente li um texto bastante completo escrito por George Monbiot para o Guardian (e gentilmente traduzido por Gabriel Simões), a respeito de como o neoliberalismo corrompe e oprime. É um texto longo, então reproduzo abaixo o que entendi das partes que mais me chamaram a atenção.

  • O neoliberalismo define o cidadão como consumidor cujas escolhas são exercidas no ato de comprar e de vender, um processo que premia o mérito e pune a ineficiência.
  • É um movimento que diz que só o mercado pode nos tornar livres, e que qualquer tentativa de limitar a competição devem ser consideradas hostis à liberdade (mas não se fala a respeito da interferência que governos exercem na proteção de algumas corporações, claramente interferindo na tal pratica do “livre-mercado” em detrimento do cidadão)
  • O neoliberal tão bem representado pelo prefeito de São Paulo João Doria acredita que todo o tipo de regulação deve acabar, impostos devem ser reduzidos, e que serviços públicos devem ser privatizados
  • O movimento acha que organizações sindicais devem ser demonizadas porque elas impedem a formação de uma hierarquia natural entre vencedores e perdedores, e que a desigualdade é boa porque ela recompensa o mérito e o esforço individual
  • Para o neoliberal, tentar criar uma sociedade igualitária é imoral já que o mercado garante que todos terão o que merecem.

Diante de regras como essas os ricos se convencem de que conseguiram suas fortunas pelo mérito e não por vantagens adquiridas, como educação, herança, classe social etc.

Na mesma vibração, os pobres acabam se culpando pelo próprio fracasso. Se você não tem emprego a culpa não é da recessão; se você não tem um emprego é porque não se esforçou o suficiente.

Se o cartão de crédito estourou a culpa não é da inflação que já não permite que com o mesmo salário você compre as mesmas necessidades básicas; se o cartão de crédito estourou a culpa é da sua negligência.

Se você não conseguiu uma aposentadoria decente, ou qualquer aposentadoria, não é porque o Estado assaltou a Previdência; se você não conseguiu uma aposentadoria decente é porque não soube planejar o futuro.

Se você está gordo não é porque os alimentos que seu salário consegue comprar estão lotados de açúcar; se você está gordo é porque é um tremendo preguiçoso que não consegue se exercitar depois de uma jornada de mais de 10 horas de trabalho, entre sair e voltar para sua casa.

Num mundo orientado pela competição, explica o autor, os que ficam atrás se definem como perdedores. Uma sociedade assim arranjada produz epidemias de solidão, angustia, alcolismo, depressão, ansiedade, fobias.

A única liberdade que o neoliberalismo oferece é a liberdade para o Capital seguir se concentrando nas mãos de poucos depois de achatar salários, poluir os rios, desmatar as florestas, criar instrumentos financeiros exóticos e sem sentido e colocar o trabalhador em perigo.

São liberdades importantes para os donos dos meios de produção porque elas garantem que, completamente diminuídos de nossa humanidade, não teremos forças para reagir e o poder seguirá nas mãos dos mesmos.

Portanto, se não mudarmos esse estado de coisas, tanto faz que Aécio seja preso, que Doria não tenha futuro político, que Temer não seja impedido. O sistema seguirá produzindo e dando poder a homens como esses, e nós seguiremos escravizados.

3 pensamentos sobre “Para escapar da ilusão

  1. Impressionantes argumentos. Precisamos urgentemente nos mobilizar em reação a esse tipo de pensamenro. Temos muitos exemplos de paises com estilos de vida dignos, que respeitam seus cidadãos, com equidade de direitos, onde dão certo as politicas de educação, segurança, saúde, economica, dentre outras, por entendimento ético das ações necessárias e de que são os cidadãos que contratam o trabalho dos políticos, com o direito a exigir que ele nos represente bem. E a condição mais importante de um político é ser um exemplo de atuação em tudo. Caso contrário temos o direito de escolher quem nos represente melhor.

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  2. Texto maravilhoso sobre (in)justiça humana.
    É raríssimo que eu poste no FB, na verdade nem entro lá, mas, mesmo sem entrar, compartilhei na minha página. “Tive” que…

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