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Um estranho episódio na Paulista fechada

É sempre emocionante passear pela avenida Paulista aos domingos e ver a colorida mistura de gente: peles, classes, gêneros, sexualidades, idades, mobilidades, enfim, tem de tudo na Paulista aos domingos. A cidade ocupada é a cidade que cumpre seu destino, e a noção é arrebatadora e emocionante.

Domingo passado andei pela Paulista ao lado de uma amiga com quem ia trocando uma ideia. As ideias parecem sempre ficar mais claras quando elas ocorrem durante uma caminhada lado a lado com pessoas que admiramos, e íamos falando a respeito de como o atual prefeito elitista deve odiar ver a Paulista cheia aos domingos e de como adoraria fazer qualquer coisa para acabar com essa mistura social, devolver os pobres para a periferia, manter sua Cidade Linda limpa dessa gente cafona e barulhenta, mas de como não consegue sequer pensar em fazer isso porque a iniciativa de seu antecessor, Fernando Haddad, é um sucesso absoluto, e não há mais como interromper a ocupação da mais famosa avenida de São Paulo aos domingos.

Íamos rindo da situação de Doria quando vimos um grupo de policiais militares fazendo uma blitz em uma barraquinha que estava na calçada. O homem da barraca, um oriental que não conseguia se comunicar em português, tinha o olhar desesperado, mas não tão desesperado quanto o de um menino pequeno que parecia ser filho dos comerciantes latinos da barraca ao lado, e que observava em pânico a abordagem que meia dúzia de PMs fazia ao vizinho.

Paramos para olhar. Por que a PM fazia blitz em barracas? Não seria essa a função de fiscais da prefeitura? Por que apenas em uma barraca? Por que naquela? Esperamos para ver o desfecho, e ele soou estranho. A PM encaixotou as coisas do senhor oriental e levou embora sem deixar com o proprietário um documento, um papel, um nada.

Tentamos seguir os policiais que carregavam a caixa com as mercadorias do homem, mas por mais que andássemos rápido atrás deles, os dois policiais conseguiram sumir na multidão com aquela caixa.

Não havia ali um fiscal da prefeitura acompanhando o trabalho dos policiais, e nada pareceu ser deixado nas mãos do ambulante para que ele pudesse tentar recuperar sua mercadoria. Nem nada foi escrito na caixa para que ela pudesse ser identificada depois.

O homem oriental, emputecido, saiu então gritando alguma coisa em sua língua nativa, enquanto os policiais, alguns sem seus nomes no uniforme, se manifestavam com expressões que iam do riso contido à total displicência.

E então me ocorreu: Doria e Alckmin não podem mais fechar a Paulista porque o povo não aceitaria ser privado do direito de ocupá-la, mas podem fazer o que parecem estar fazendo: disseminando o medo, essa arma de controle tão eficaz.

Minutos depois da batida era possível se escutar ambulantes gritando um para o outro: Lá vem eles! Lá vem eles!, e vê-los empacotar tudo e sair correndo.

Não ficou claro para onde os policiais levaram aquela caixa. Não está nada claro o que foi feito da mercadoria que foi apreendida sem que o proprietário tivesse ficado com um documento em mãos. Mas me parece bastante claro o que faz a policia em São Paulo, e bastante claro também quem é o inimigo que eles saem às ruas para combater: somos você e eu, no domingo representados por aquele senhor oriental que voltou para a casa vazio de sua mercadoria e cheio de medo.

4 pensamentos sobre “Um estranho episódio na Paulista fechada

  1. Triste episódio Milly. Isso mostra o poder da direita elitista, como eles governam quanto estão no poder. Esse governo atual (Federal, Estadual e Municipal) não estão preocupados com o bem estar da população.

    Você frisou bem, como não podem destruir um programa popular de sucesso que o Fernando Haddad implantou, a outra maneira de “boicotar” o lazer na população, é agir com esse tipo de atitude…

    Agora a pergunta: O papel principal da polícia, no que se refere a segurança, como está? Será que no momento do episódio, não estava ocorrendo assaltos na região? Fica a dúvida…

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