Comportamento/Economia/Política

O teatro da democracia

Michel Temer está no poder porque ele é interessante ao empresariado. Com apoio popular perto de zero, e tendo sido conduzido ao cargo de funcionário público número 1 do país sem ter obtido votos nas urnas, Temer segue na função apenas porque está a serviço do capital privado e precisa implementar o plano de governo que foi democraticamente rejeitado pela população mas que é interessante para os detentores dos meios de produção.

Suspeito de inúmeros crimes, delatado por dezenas de outros homens tão suspeitos quanto ele, às pressas liberou quase 2,5 bilhões de reais para os deputados que vão decidir se ele segue ou não no cargo.

Nada disso é segredo, muito pelo contrário, e por isso mesmo espanta que ainda chamemos esse sistema de democracia. Não vivemos mais em uma democracia, vivemos sob o comando de uma tirania privada, representada pelos amigos de Temer e suas corporações.

JBS e Odebrecht já revelaram, em detalhes, como opera essa tirania que faz uso do capital privado para criar leis que protejam ainda mais a segurança dos proprietários desse capital privado enquanto enriquecem os políticos que estão a serviço desse mesmo capital privado.

Mas não vem ao caso continuar falando essas coisas porque as investigações que levaram ao conhecimento dos crimes cometidos pela parceria público-privada não visam, na verdade, acabar com o atual estado deplorável de coisas, mas apenas inviabilizar a ameaça social que seria a volta de Lula ao poder.

A classe dominante cansou de brincar de “cotas”, e de “bolsa-família” e de “SUS”, e de “Luz para Todos”, de “Prouni”, e dessa porra toda. Chega dessa palhaçada porque o Estado não está aqui para ajudar pobres. O Estado neoliberal está aqui para ajudar ricos, e apenas eles: corta-se programas sociais na mesma medida e com a mesma naturalidade que se perdoa a dívida de bilhões que as mais diversas corporações têm com o Estado.

Mas como doutrinar a população a aceitar medidas estapafúrdias como essas? Com propaganda, muita propaganda.

Se os governos estão endividados é preciso convencer a população de que, assim como acontece em suas casas, se a conta não fecha é preciso gastar menos e cortar custos (todos os custos com o social devem ser cortados para o bem de vocês, eles alegam em propagandas que custam muito dinheiro, ainda que não haja nenhuma lógica em nenhuma dessas coisas).

O que não dizem é que, primeiro, governos e lares são coisas incomparáveis e governos não precisam dar lucro, precisam apenas fornecer a todos os seus cidadãos os mesmos direitos e oportunidades.

Segundo, se a conta não fecha existe uma alternativa ao cenário de “vamos cortar gastos”, especialmente se esses gastos são essenciais à dignidade humana de muitos dos envolvidos nos cortes. A alternativa é “ganhar mais”, o que nesse caso seria “cobrar impostos pesados daqueles que têm dinheiro: os milionários e de suas corporações”

Embora saibamos de todas essas coisas, permanecemos quietos, sem nenhum rufar de panelas ou chamadas às ruas. Nosso silêncio é celebrado pelos políticos que precisam apressadamente fazer valer a agenda empresarial e aprovar coisas como o enterro da CLT e da aposentadoria enquanto sorrateiramente vão eliminando todos os ganhos sociais que o povo obteve durante os anos Lula e Dilma.

Aqueles que há alguns meses vestiram suas camisetas amarelas e foram para as ruas “protestar contra a corrupção” ou já perceberam que foram usados como massa de manobra e agora choram o fim de seus direitos ou sempre souberam que estavam indo apenas tirar o PT do poder.

Nesse segundo caso fica evidente que se trata de um grupo de cidadãos que tinha consciência de estar indo às ruas lutar contra a democracia, ainda que o discurso fosse radicalmente o oposto.

Só que existe um custo alto quando optamos por calar a voz das urnas, e ele nos faz caminhar por uma trilha na qual tudo passa a valer, tudo passa a ser aceitável, tudo passa a ser legal, a despeito dos direitos que vão ficando pelo caminho.

2 pensamentos sobre “O teatro da democracia

  1. Nem toda a energia adquirida na FLIP 2017, nem todo o conteúdo dos palestrantes mais especiais, nem Diva, Noemi, Scholastique, nem Milly me levanta mais dessa cama. “A vida não erra” foi sua dedicatória no livro. Será?

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