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Pelo fim do diálogo

Acho que chegou a hora de a gente admitir que não há mais espaço para diálogo. Nunca houve, aliás. Porque não se dialoga com racistas, com nazistas, como fascistas, como homofóbicos. O que estamos fazendo ao confundir liberdade de expressão com liberdade de opressão é criar ambiente para que homens brancos hétero-normativizados, esses que dominam o mundo há séculos, achem que podem sair às ruas e cantar seus ódios livremente. Não, não podem. Não deveriam poder.

A preguiça em relação ao politicamente correto é uma preguiça ignorante. É chato ser o politicamente correto da turma e ficar corrigindo todo mundo a toda hora, claro, mas é mais chato que uma mulher seja estuprada a cada 11 minutos, é mais chato que mesmo depois de termos passado pelo Holocausto ainda haja nazistas que se orgulhem de ser nazistas e saiam livremente por aí entoando seu ódio, é mais chato que todos os dias homens, mulheres e crianças precisem fugir de suas casas devastadas pela força bruta do capitalismo e se aventurar a  cruzar uma fronteira para serem recebidos como baratas, é mais chato que a população carcerária do mundo seja majoritariamente negra, mais chato que negros na periferia sejam assassinados todos os dias pela polícia sem que nada aconteça, é mais chato que uma mulher não ganhe o mesmo que um homem exercendo a mesma função, mais chato que o Brasil seja o país que mais mata travestis no planeta, mais chato que muçulmanos sejam confundidos com terroristas se o terrorismo branco é o que mais dizima há muitos e muitos anos, mais chato que a maior potência mundial tenha eleito um nazista-homofóbico-racista como líder, mais chato que o prefeito de São Paulo acorde morador de rua de madrugada com jatos de água fria., mais chato que Rafael Braga ainda esteja preso e que bandidos de pele branca, terno e gravata estejam em Brasília fazendo leis e vivendo livremente. Tudo isso é mais chato do que ser politicamente correto.

Não se abre debate com fascistas. O que é preciso fazer é, a cada dia mais, ser o chato e levantar da mesa quando aquele primo otário fizer piada racista ou homofóbica. É preciso ser o maluco que na padaria, ao escutar o rapaz da mesa ao lado fazer um comentário preconceituoso, levante e voz e diga, Chega de falar merda. É preciso ser o chato que, na fila do embarque, ao escutar o homem que está atrás de você destilar alegremente seus discurso machista para a atendente da companhia aérea que está apenas fazendo seu trabalho e recolhendo os documentos, vire para trás e diga, Deixa de ser babaca. É preciso ser o chato que, no restaurante, ao testemunhar a madame tratar o garçom com desleixo e arrogância diga em voz alta, Leva esse seu classismo para casa e deixa ele escondido, minha senhora.

É preciso entender que acabou a tentativa de diálogo com essa turma. E que chato é viver num mundo que oprime, reprime e naturaliza o preconceito a ponto de fazer parecer bastante normal que, em 2017, nazistas saiam as ruas para celebrar seu ódio.

3 pensamentos sobre “Pelo fim do diálogo

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