Comportamento/Política/Vida

Uma palavrinha sobre o episódio William Waack

Nasci e cresci dentro de uma família bastante tradicional. Católica, conservadora, direitista, totalmente branca e ligeiramente rica. Estudei nas melhores escolas, tive acesso a clubes privados onde pude praticar esportes e conhecer pessoas como eu, viajei para a Europa antes dos 18 anos, aprendi outras línguas, li muitos livros.

Durante essa minha infância privilegiada não era incomum ouvir pessoas dizendo coisas como “branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão”. Não lembro de alguém reclamando de colocações assim, muito pelo contrário: escutava risadas. E eu ria junto.

Uma criança que se forma nessa circunstância tem sua configuração padrão programada para acreditar ser melhor do que outros: negros, pobres, excluídos. A vida, aliás, vai dando a você a certeza de ser assim. Os melhores empregos são seus, os salários mais altos também, as maiores casas, as refeições mais sofisticadas.

É preciso um bocado de atenção e disciplina para perceber que o mundo real não é bem aquele em que tentaram fazer você acreditar. O mundo real é injusto, cruel, desigual e a sua volta existem milhões de pessoas que, ao contrário de você, não tiveram oportunidades. Nessa hora é fundamental que nos perguntemos como teria sido a vida delas se tivessem tido as chances que eu tive.

Claro que é mais fácil acreditar que eu me dei bem na vida porque sou mesmo boa e talentosa. Que ganhei dinheiro porque me esforcei. Não é conveniente acreditar que só ganhei dinheiro e status porque tive mais oportunidades, ou uma herança, ou consegui meu primeiro emprego porque meu pai era amigo do dono da empresa.

Mais fácil também acreditar que o sujeito que está agora limpando o chão da empresa onde trabalho está fazendo isso porque é intelectualmente incapaz e nasceu mesmo para limpar o chão e tirar o lixo.

Imaginar quem ele seria se tivesse estudado onde estudei, conhecido as pessoas que eu conheci, tido as mesmas oportunidades não vem ao caso. E, afinal, alguém precisa limpar esse chão e tirar o lixo.

Exige-se atenção e disciplina para se desfazer da configuração padrão e pensar por conta própria. Trata-se, como sugeriu o escritor David Foster Wallace, da verdadeira liberdade: a liberdade de enxergar o outro.

No episódio do racismo revelado de William Waack uma coisa me chamou a atenção antes mesmo que ele dissesse “é coisa de preto”: quando alguém buzina e Waack, de forma vulgar, e visivelmente incomodado com o barulho pouco antes de entrar no ar, diz, agressivamente, que o cara que buzinou é um merda.

É exatamente nesse tipo de acontecimento que devemos tentar praticar a liberdade sugerida por David Foster Wallace. O barulho da buzina não diz respeito a você. Ou à sua necessidade de concentração para entrar ao vivo em rede nacional de TV. Ou ao seu bem-estar.

E se o motorista que buzinou estivesse com o filho doente ao lado tentando chegar ao pronto socorro? E se estivesse buzinando para um cachorro sair da frente e não ser atropelado? Não são possibilidades reais, ainda que improváveis?

Achar que a buzina diz respeito a você, e ao seu momento de trabalho, faz parte de nossa configuração padrão. E a reação destemperada de Waack com a buzina me incomodou – ainda que eu já tenha reagido assim infinitas vezes na vida porque, afinal, essa é também a minha configuração padrão e a coisa mais simples do mundo é acreditar que as coisas que acontecem a nossa volta dizem respeito a nós e a mais ninguém.

Mas a sequência dos acontecimentos é ainda mais chocante.

Dizer “é coisa de preto” não é uma escorregada, não é acidente, não é tropeço. “É coisa de preto” carrega em si um arsenal de podridão moral, de injustiça, de crueldade, de desumanidade. É uma violência. É uma vulgaridade. É crime. Não se diz na rua, não se diz em casa, não se diz sozinho no banheiro, não se pensa.

E se a frase passar pela cabeça, mesmo que silenciosamente, então devemos reconhecer o racismo em nós mesmos e tentar nos livrar dele.

Todos somos feitos de inúmeros preconceitos. Somos falíveis porque somos humanos. Nada disso surpreende. O que surpreende é a essa altura da evolução humana não reconhecer o preconceito e fazer o que for preciso para se livrar dele.

Waack pode aprender com o episódio. Pode deixar de ser racista. Pode dar uma volta no racismo. Pode se tornar uma pessoa melhor. Tudo isso pode acontecer. Todos temos essas chances na vida. Mas para que cheguemos nesse lugar é preciso encarar o episódio com a gravidade que ele merece. E reconhecer que o racismo faz parte de todas as estruturas de poder que nos moldam.

12 pensamentos sobre “Uma palavrinha sobre o episódio William Waack

  1. Sempre muito bom ler seus artigos! Mostra o quanto a gente pode evoluir qdo para de repetir (sem refletir, como um papagaio) os pequenos preconceitos nossos de cada dia.

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  2. Sim, infelizmente a educação a qual estamos subordinados, impregnada de preconceitos, nos ensina a sermos racistas e homofóbicos.
    Para se libertar, é necessário uma visão crítica deste modelo ultrapassado e careta.
    Só lendo muitoooooooooo.

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  3. William Waacko é um cara sofisticado e como tal estravaza de uma forma sutil e caridosa…Uma buzina na rua incontrovertivelmente é alguém do hemisfério brega tentando dar um cramp em seu style.Claro.Essas bestas que usam a rua não tem nem ideia da importância e enormidade de sua produção jornalística.”É coisa de preto” quer dizer,alguem que faz algo e não tem como se importar com as aparências,por falta de ilustração básica,pedigree,alguem que certamente não pertence ao seu circulo, talvez em uma relação de troca de serviços,talvez em uma prestação de serviços
    sexuais…hum…

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  4. “Todos temos essas chances na vida. Mas para que cheguemos nesse lugar é preciso encarar o episódio com a gravidade que ele merece. E reconhecer que o racismo faz parte de todas as estruturas de poder que nos moldam.”

    Poucas vezes pude ler tanta sensatez, de quem teve todas as oportunidades, não é comum!
    Recomendo a leitura!

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  5. Milly, Temos diferenças políticas gritantes, mas sobre essa questão, concordo com cada letra que vc escreveu. As pessoas não assumem o seu racismo interior e a hipocrisia aflora. Parabéns pelo texto. Foi brilhante.

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