Comportamento/Política/Vida

Por que não existe o dia da consciência branca?

Quanto mais nos aprofundamos nessa trilha escura em que nos metemos mais percebemos que todos os monstros que permaneceram adormecidos por décadas dentro de cada um de nós estão dispostos a despertar.

Assombrados, estamos assistindo monstros de todos os tipos ganharem vida. O dos outros e os nossos. Monstros capazes de dizer e fazer coisas horrorosas, de ferir e agredir. Monstros cheios de preconceitos e intolerâncias.

Alguns desses monstros não têm mais vergonha de vociferar o que há alguns poucos anos pareceria indizível. Está valendo ser racista, homofóbico, classista, fascista. Já não parece mais haver nada de errado com isso. Pelo contrário. Pessoas que manifestam preconceitos são reverenciadas como sinceras, corajosas, autênticas.

Pegamos essa trilha errada e dentro dela intolerância se transforma em coragem, preconceito é sinceridade, discriminação é honestidade. Liberdade de expressão sendo confundida com liberdade de opressão a todo o instante. Mas não há nada de corajoso, ou de sincero, ou de legítimo, ou de livre em perpetuar mecanismos de opressão.

Ao ofender minorias políticas o que estamos fazendo é trabalhando para excluí-los e confiná-los ainda mais. É o oposto de liberdade. É apenas crueldade.

Algumas dessas manifestações tidas como arrojadas pedem coisas como o “dia da consciência branca” ou o “dia do orgulho hétero”, o”dia do patrão”.

O que há de comum em toda a manifestação de preconceito é a tremenda ignorância que carregam, e ela não deixa de se revelar em pedidos como esses. Simplesmente porque aquilo que é dominante e que há séculos trabalha com a autoridade, a autocracia e a opressão não precisa ser reverenciado.

Homens brancos e heterossexuais (ou auto-definidos assim, porque sabemos perfeitamente que a sexualidade humana é complexa e cheia de tonalidades) são justamente aqueles que há tantos séculos comandam as estruturas de poder que nos confinam e excluem.

Isso não quer dizer, naturalmente, que todos os homens brancos sejam assim, ou que nenhuma mulher aja dessa forma, ou que não existam negros acomodados dentro de uma estrutura como essa. Janaínas e Holidays estão aí como exemplo.

Isso quer dizer apenas que a lógica heteronormativa, branca e fálica é aquela que nos foi imposta, aquela que criou cores de pele “melhores”, gêneros “mais fortes”, sexualidades “certas”. E, dentro dessa lógica, há mulheres perfeitamente inseridas e perpetuadoras dos mecanismos de opressão, e homens que se revoltam e querem destruí-los.

Não se celebra o dominante simplesmente porque, sendo a norma, o dominante é celebrado todos os dias: com o enorme privilégio do poder, da legislação, da escolarização, da riqueza, da oportunidade, da liberdade.

Não é, portanto, necessário um dia que homenageie o dominador, o colonizador, o opressor, o repressor, o responsável pelo atual estado de coisas.

Pedir coisas como essas não é apenas absurdo e bizarro, é também cruel e violento; uma violência medonha e covarde cometida contra milhões de seres-humanos em nome de uma falsa igualdade que nada mais é do que a sórdida tentativa de perpetuar desigualdades seculares.

Pelo mesmo motivo não é preconceito dizer: “Nessa reunião não entram homens”, ou “esse é um clube apenas de negros”, ou “esse debate não diz respeito a heterossexuais”, ou “quero que a equipe de produção desse filme seja composta apenas por mulheres”.

Não existe preconceito quando o excluído é o dominador, o opressor, o repressor, a autoridade. Isso se chama resistência. São valores opostos.

Preconceito lida com confinamento. Resistência lida com libertação. O preconceito é desumanizante; a resistência é misericordiosa. Preconceito é violência; resistência é integridade. O preconceito quer manter sistemas de poder e de classes. A resistência luta para que as instituições ofereçam os mesmos direitos e oportunidades a todos.

Mas, obviamente, lutar pela real inclusão social de todos é atitude democrática, e a democracia é uma ameaça a qualquer sistema de poder. Então, os dono do poder, ao perceberem que a onda da igualdade, da liberdade e da fraternidade já se formou e que nada mais pode detê-la, em desespero e prestes a se afogar gritam cretinismos e imbecilidades como “quero o dia da consciência branca!”.

Termino com Michel Foucault, atualíssimo: “Estamos vivendo sob uma ditadura de classes, um poder de classe que se impõe pela violência, mesmo quando os instrumentos dessa violência são institucionais e constitucionais”.

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