Comportamento/Política/Vida

Como você seria diferente se tivesse nascido mulher?

No dia 17 de dezembro de 1982 Dustin Hoffman estreou Tootsie, a comédia em que ele faz o papel de uma mulher. Fazia cinco dias que eu tinha dado passagem a meus desejos homossexuais e ficado com uma amiga do colégio, meu mundo estava de pernas para o ar, todas as minhas certezas tinham sido chacoalhadas, e o filme me pegou num lugar mais fundo porque, embora estivesse sendo divulgado como comédia, havia uma cena em que Hoffman, vestido como uma mulher, ficava com outra mulher. Em 1982 não havia representatividade gay na TV ou no cinema, eu não me enxergava em lugar algum, e a cena me ajudou de algumas formas.

Hoje de manhã, lendo o site da jornalista americana Maria Popova, um que eu visito diariamente e que recomendo, encontrei essa entrevista de Hoffman a respeito do filme.

É das coisas mais lindas que já vi sobre ser mulher, e de como, ao ter a chance de mudar nosso lugar de fala, somos capazes de sentir – em vez de entender – o que significa ser mulher.

A ponte que faz com que deixemos a terra do entender e consigamos chegar à do sentir é feita de empatia. E a entrevista emociona por isso.

Como está em inglês, traduzo livremente aqui a história contada no vídeo.

Tootsie nasceu de uma pergunta feita por uma amiga de Hoffman: “Como você seria diferente se tivesse nascido mulher?”

A pegunta não era: como você se sentiria sendo mulher, uma que todos nos fazemos a repeito de como seria ser de outro gênero. A pergunta era outra.

Hoffman então foi ao estúdio (Columbia) e quis saber se eles poderiam, antes de decidir se faria ou não o filme, transformá-lo em mulher. Ele queria andar pelas ruas de Nova York como mulher sem que as pessoas ficassem olhando e se perguntando quem é esse freak, ou quem é esse homem vestido de mulher. Queria se misturar. Só assim, ele achava, poderia existir um filme.

Os profissionais do estúdio o maquiaram e quando a transformação foi concluída Hoffman se viu no espelho e disse aos maquiadores:

“Ok, sou uma mulher, vocês conseguiram. Agora façam com que eu seja uma mulher bonita”.

Ele pensou que, se eu fosse ser uma mulher, quereria ser bonita. Os maquiadores disseram: “É o melhor que podemos fazer, essa é a mulher que você é”.

Hoffman foi para casa e, chorando, disse a sua mulher:

“Eu preciso fazer esse filme”.

“Por que?”, ela quis saber.

“Porque eu acho que sou uma mulher interessante, e se eu me encontrasse assim numa festa eu jamais falaria comigo porque, fisicamente, não preencho as exigências que somos encorajados a acreditar que uma mulher precisa ter para que queiramos sair com ela”.

“O que você está dizendo?”

E ele explica, agora chorando na entrevista:

“Existem muitas mulheres interessantes que eu não tive a experiência de conhecer nessa vida porque sofri uma lavagem cerebral”. E conclui:

“Esse filme nunca foi uma comédia para mim”.

Nem para mim, meu caro sr. Dustin Hoffman.

Aqui a matéria de Maria Popova e a entrevista de Hoffman.

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