Comportamento/Política/Vida

2017; um ano desses, bicho

Dois mil e dezessete foi o ano em que fiz um pacto com aceitar todo o tipo de desafio que aparecesse pela frente, uma espécie de conchavo com o sim. Nesse embalo, fui MC de evento, encarei o retorno temporário ao cotidiano de uma redação, saí com gente que jamais imaginei sair, tomei a iniciativa de dar um beijo na boca de uma outra pessoa, ousadia que eu ainda não tinha realizado, fui sozinha em festas nas quais só conhecia a aniversariante (ok, fui a apenas uma festa dessas, mas fui bravamente), encarei viagens impensáveis, tomei um porre com minha mãe (mais de um, é verdade), pedi desculpas para gente que eu achava que me devia desculpas, aceitei fazer entrevistas que teria recusado se não tivesse estabelecido esse pacto com o absurdo, talvez tenha matado uma barata, embora jamais saibamos que bicho medonho era aquele perto do ralo do chuveiro que esfacelei para além do reconhecimento com quatro mil chineladas enquanto gritava como uma soprano descontrolada. Em compensação não fiz escândalo quando minha ex mulher disse que queria voltar ao Brasil e morar no nosso apartamento, encarei sair de lá e me mudar para um bairro que pouco conhecia e começar vida nova, consegui manter uma relação aberta com outra mulher sem sugerir casamento, ou sequer namoro, um feito enorme para alguém que só entendia a vida se estivesse morando junto, topei um curso de sexo tântrico e, depois, uma massagem tântrica.

Para não listar apenas feitos próprios preciso dizer que foi em 2017 que meu sobrinho Antonio pisou descalço em uma jararaca ao descer do sofá e que, estando sozinho em casa, teve que superar seus piores pesadelos e matar o bicho a pauladas gritando como um barítono descontrolado e me telefonando segundos depois, ainda trêmulo, mas bastante orgulhoso. E foi o ano em que descobrimos juntos, para nosso horror – mais dele do que meu – que uma cobra morta segue se contorcendo por um bom tempo.

Foi também o primeiro ano em que meditei todos os dias por pelo menos uma hora, ano em que conheci Rocco, filho da minha amiga Paola e do meu amigo Pedro, almas que vão me acompanhar até o fim dos tempos, e ano em que tive coragem de declarar meu desejo para alguém que, da forma mais doce, sensível e elegante do mundo, explicou que eles não eram correspondidos. Ano, portanto, em que aprendi que não há problema em ser rejeitada, muito pelo contrário, porque a vida oferece enormes recompensas aos que, valentemente, confessam sinceros desejos e topam se mostrar vulneráveis.

Talvez por isso, quando esse ano cheio de significado e de coragem se preparava para fechar as cortinas, o mistério que é existir tratou de deixar tudo ainda mais bonito. Foi numa noite quente de sexta-feira, em uma esquina de Botafogo, que você me beijou o beijo mais macio e delicioso que já ganhei, um beijo que, agora sei, abre portais, encanta e enfeitiça.

Dois mil e dezessete nem precisava ter se despedido de mim de forma tão apoteótica, essa é a verdade; já teria sido um ano grandioso, talvez o melhor da minha vida, mesmo sem esse final arrebatador, mas parece que ainda faltava abrir alas para o mistério da vida passar – e ele passou me arrastando.

Primeiro para os teus braços, depois para a sua cama até que, sorrateiro, me ocupou por completo o coração. E que enorme presente é esse encantamento, essa paixão, esse turbilhão de emoções, de desejos e de sonhos, especialmente quando tudo chega sorrateiro. “Deus vem vindo”, escreveu Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, “ninguém vê. Ele faz é na lei do mansinho”. E eu realmente não vi Ela vindo, mas o fato é que Ela veio – na lei do mansinho.

Desde o episódio do beijo encostadas em um poste do lado de fora de uma cervejaria em Botafogo, se eu fechar bem os olhos e me deixar levar por sensações e emoções, por palpitações e pulsações, me transporto para bem perto desse derradeiro mistério que é estar viva, esse que não podemos colocar em palavras porque ele transcende qualquer categoria de pensamento; e então, como no afresco de Michelângelo, posso encostar um átomo do que sou no dedo do divino.

É o máximo que se pode ter em uma vida; e é muita sorte que eu tenha alcançado esse estado de esplendor quando já nem mais pensava nele e andava me contentando com um tipo bastante mundano, e razoavelmente decente, diga-se, de felicidade. Mas que enorme privilégio, que grande êxtase, que tremenda apoteose ter enxergado você quando o ano se preparava para sair de cena. Dois mil e dezessete; um ano desses, bicho.

18 pensamentos sobre “2017; um ano desses, bicho

  1. Eu estou é sensível demais, mas teu texto me fez chorar. Talvez porque o meu 2017 tenha sido muito complexo, por eu ter encontrado uma mulher incrível e estar perdendo para o caos que eu fiz desse ano. Que 2018 seja LEVE, pois nem sempre o doce é saboroso. OBRIGADA porque ao te ler eu lembro que eu escrevo e que é escrevendo que eu me organizo.

    Sucesso, sempre!

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  2. Quem resolveu fatiar o tempo foi sábio demais! Imagina um 2017 forever? Sem a delícia de pensar e esperar que o melhor está por vir em 2018-19-20? Esperança não existiria no dicionário e aí? Vidas á deriva á espera do acaso. Seu texto, lindo como sempre, me fez pensar: quem sabe em 2018 vc nos dê de presente “O dia em que nasci em Botafogo”? Espetaculares recomeços pra ti, e um 2018 solar!

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  3. Li seu livo este final de semana. Eu nem sei como descobri o livro, sinceramente. Tentei me lembrar e não consigo. Moro na Alemanha, e tive que comprar por ebook (foi o maior trampo, Milly! Tem que melhorar essa parte aí de vendas de ebook)… mas enfim seu livro apareceu na minha frente na hora que eu precisava. E eu amei. Que lindo, ter coragem de se abrir assim, e que lindo conseguir colocar em palavras a sua busca, que é a busca de muita gente. Queria te agradecer. Se livro foi um um companheiro incrível para uns dias de dor dilacerante. E me lembrou de muita coisa que eu já sabia mas que precisava que alguem colocasse em palavras para mim. Obrigada e muita sorte para você!

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