Comportamento/Economia/Política/Vida

Tudo é e tudo contém política

Vivemos tempos estranhos e duros. Estamos sitiados, isoladas, amedrontados, endividadas, esgotadas. Corremos de um lado para o outro sem saber muito bem por que ou para que. A resposta automática que damos a nós mesmos para tanta pressa e falta de tempo sempre é: as contas não vão se pagar sozinhas.

Sem consciência do que está acontecendo com a gente, e de como as instituições e o poder econômico se beneficiam desse nosso esgotamento, vai ser difícil virar um jogo no qual oito homens brancos retém a mesma riqueza de metade da população mundial (no Brasil, seis famílias reúnem a mesma riqueza de metade da população). E quando a gente fala em concentração de riqueza se refere também à concentração de poder, porque são essas pouquíssimas pessoas que atualmente fazem as leis e distribuem a informação.

Para que o cenário mude é preciso uma coisa fundamentalmente: entender que tudo é política. Da roupa que vestimos, ao corte de cabelo, passando pelas gírias que escolhemos usar, pelas tatuagens com as quais nos marcamos, pelas coisas que comemos e pelos gestos que fazemos.

Se tudo a nossa volta e em nossos corpos é política, das mais insignificantes miudezas individuais às mais sonoras manifestações coletivas, não existe, para o nosso bem, palco que possa estar alheio à política, e muito menos a hora ideal para que a pratiquemos.

A cada dia mais é preciso que sejamos escutados, que ofereçamos nossos recados, que compartilhemos ideias e angústias e medos.

Apenas quando nos manifestamos é que podemos perceber que um problema que julgávamos pessoal é, na verdade, social; e que a culpa pelos nossos fracassos é, na enorme maioria das vezes, resultado de um arranjo econômico criado para que sigamos à margem, esgotados e produzindo, em benefício de uma pequena parcela de homens muito branca e muito rica.

Mas a quem interessa que façamos política? Não, certamente, à classe dominante que quer manter as coisas como sempre foram. Então somos encorajados a não fazer. A não falar. A não reclamar. Somos levados a acreditar que fazer política é errado, é chato, é vão, é constrangedor. Ou que precisamos escolher muito bem a hora e o local.

Somos também induzidos a enxergar que aqueles que se manifestam politicamente se dão mal, acabam isolados, tratados como malucos e expurgados pelo sistema; uma verdade, aliás, porque é dessa forma que as vozes dissonantes são eliminadas e não oferecem mais risco à ordem e ao poder econômico.

Trabalhem e não reclamem, é o que nos dizem os homens do poder. E é o que fazemos, até porque precisamos do emprego já que “as contas não vão se pagar sozinhas”.

Só a única forma de sairmos desse caos social é fazendo política, e um evento esportivo é uma desses momentos ideais para fazer política porque, não precisando esperar ocasião para tentar “negociar livremente com o patrão” e dizer o que pensamos e desejamos, deixamos de correr muitos riscos. Não são tão frequentes as chances que temos para praticar a arte de escutar o oprimido, e de nos manifestar livre e coletivamente, e eventos esportivos são bem-vindas brechas para que extravasemos.

Decidi postar esse texto depois de ler o que Tiago Leifert, um cara que respeito muito, escreveu sobre não achar que eventos esportivos sejam o melhor local para fazer política.

Trabalhei com ele e, das pessoas que conheci na TV, certamente está entre as cinco mais fascinantes. É um cara gentil, extremamente inteligente, divertido, bem humorado, culto e educado. Mas, em nome do bom debate, achei que poderia me contrapor.

Termino com as palavras de Michel Foucault a respeito da importância de nos interessarmos por política:

“Sua pergunta é: por que tenho tanto interesse em política? Mas se eu fosse responder você de forma bastante simples eu diria que a pergunta deveria ser “por que eu não deveria me interessar?” Quero dizer, que tipo de cegueira, de surdez, de ideologia poderia me impedir de estar interessado no que é provavelmente o mais crucial assunto de nossa existência, que trata da sociedade em que vivemos, das relações econômicas dentro das quais ela funciona e do sistema de poder que define as formas, permissões e proibições de nossas condutas. A essência de nossas vidas consiste, afinal, do funcionamento político da sociedade dentro da qual nos encontramos. Portanto não posso responder a pergunta de por que devo me interessar. Só posso responder se perguntar “por que não deveria me interessar?” Não me interessar, isso sim, constituiria um problema. Então, em vez de perguntar a mim você deveria perguntar a alguém que não está interessado em política, e nesse caso sua pergunta estaria bem fundamentada, e você teria o direito de dizer, “Por que diabos você não está interessado em política?”

3 pensamentos sobre “Tudo é e tudo contém política

  1. Concordo com o Tiago Leifert. Passamos o dia sendo bombardeados com notícias sobre política. Além disso, com a internet, temos informações sobre política em muitas outras fontes. Então quando eu quero política eu procuro política. Quando eu ligo a tv em um canal de filmes, quero entretenimento, não estou nenhum pouco interessado em saber se aqueles atores e atrizes são de direita ou de esquerda. Da mesma forma, quando ligo a tv em um canal de esportes, também quero entretenimento, pouco me importa se o atacante do meu time gosta do Bolsonaro, ou se o goleiro apoia Lula e acha que foi golpe.

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