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É preciso falar da intervenção a que Marielle se opunha

A execução de Marielle Franco está sendo usada por seus opositores para justificar a intervenção militar no Rio. É do jogo político, esse jogo baixo e covarde, tentar se apropriar de grandes mobilizações populares em causa própria, mas no caso de Marielle fazer essa apropriação seria virar do avesso todas as bandeiras que ela levantava tão sonoramente.

Desesperados para legitimar uma intervenção inconstitucional, o poder econômico, que opera via Michel Temer, tenta usar o momento para dizer: “Vejam como era necessário usar o exército para resolver o problema da violência no Rio”.

Se o exército é uma instituição treinada exclusivamente para combater o inimigo é preciso que façamos a pergunta: quem é, aqui, o inimigo?

A resposta está dada e é internalizada sem que a população precise parar para pensar: o inimigo é essa gente da comunidade. As imagens dos homens do exército nos morros, com seus fuzis para cima, e fichando moradores das comunidades cariocas deixa isso muito claro. A tentativa de criminalizar a pobreza não é acidental, é um projeto de dominação política.

Porque se a intenção fosse a de combater a violência e as drogas fazendo uso do exército esses homens de verde deveriam estar em outros lugares – e todos sabem que lugares são esses e a quem pertencem os helicópteros com 500 quilos de pasta de coca achados por aí.

A intenção da intervenção nunca foi a de proteger o povo, e sim a de proteger o poder econômico da fúria que nasce sempre que a população ganha consciência.

E para evitar esse risco é preciso reforçar condicionamentos de medo e de insegurança jogando a classe média contra a população das comunidades, esses “lugares que abrigam bandidos e onde o exército tem que intervir fazendo o que for necessário, nem que seja abrindo a lancheira das crianças que vão para a aula a fim de procurar por drogas”.

Manipular a opinião pública para criar condicionamentos operantes é bastante conveniente para os homens que tomaram o poder e estão, dia após dia, executado direitos de todos nós porque como vivemos numa dita democracia o uso exclusivo da porrada e do cacetete não soaria bem: é preciso manipular o pensamento.

E nesse jogo ganha quem conquistar para a sua trincheira a classe média. Então, o ideal é fazer com que a classe média não se identifique com a população operária, não perceba que são a mesma coisa – gente que trabalha porque no fim do mês precisa de um salário para pagar as contas e sobreviver – e lute pelos privilégios de uma elite minúscula mas cheia de poder a qual ela jamais pertencerá. É assim que esse teatro da democracia segue existindo.

Inundados de medo não nos oporemos a ser espionados, vigiados, controlados. Com medo pediremos que o exército invada as ruas e faça o que for preciso fazer para nos garantir segurança, com bastante medo é possível até que compactuemos com uma ideia que parecia absurda mas que talvez não seja mais: a de que não haverá eleições no fim do ano.

O medo não serve para indicar caminhos porque ele vai sempre fazer com que optemos pela segurança, e segurança é o oposto de liberdade. Por isso a fabricação do medo é uma ferramenta tão usada pelos que estão no poder, e querem se perpetuar no poder.

O Rio, ou o Brasil, não precisa de intervenção militar porque o povo das comunidades não é o inimigo. O inimigo desse estado de coisas que vivemos é a falta de oportunidade de trabalho decente, é a falta de tempo para o lazer, é a falta de perspectiva de uma vida de aprendizado e de crescimento pessoal, é a falta de dignidade, é a falta de espaços culturais nas comunidades, a falta de dinheiro para comer, morar e cuidar da saúde de forma satisfatória, a falta de consciência política e de classe, essas coisas básicas que nos humanizam uns aos outros.

Marielle sabia dessas coisas e lutava pela honra e pela humanização das pessoas das comunidades, incluindo aí policiais, porque entendia que apenas através do outro é que podemos existir, e que o único caminho para a formação de uma sociedade mais igualitária e justa é enriquecer a liberdade individual e acabar com o preconceito.

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