Comportamento/Economia/Política/Vida

Confissões de uma coxinha (ou uma cartinha para Lula)

Eu nasci coxinha e cresci coxinha. Votei em Maluf, votei em Collor; votei em FH, em Serra e no Jânio. Frequentei as escolas mais caras do Rio e de São Paulo, e dois clubes de elite, onde jogava vôlei e ia à piscina nos fins de semana; fui estudar na Europa e depois nos Estados Unidos, e nunca me faltou uma oportunidade de emprego na vida porque meu pai conhecia gente importante que, sempre que ele pedia, ia me abrindo as portas.

Me desenvolvi sem entender que meus privilégios não eram conquistas exatamente minhas, e achando de fato que eu era melhor do que aqueles que limpavam a minha casa porque, afinal, eu sabia coisas que eles não sabiam, como regra de três, quem foi o arquiduque Ferdinando e o que seu assassinato acarretou, e a data da queda da Bastilha.

As almas que me serviam não sabiam de nada disso, mas também não me interessava pensar por que elas não sabiam essas coisas e eu sim. “Por que?” não é uma pergunta que privilegiados como eu façam com regularidade: “Por que não há negros nesse restaurante?”, “Por que a babá de meus filhos trabalha mais horas do que meu marido e continua sendo pobre de marré-de-si?”, “Por que será que a população de rua tem aumentado tanto no Brasil e no mundo?”, “Por que não querem saber como FH comprou e pagou pelos imóveis que estão em seu nome mas perseguem com fúria e ódio um apartamento no Guarujá tentando provar que ele é de Lula, esse cara que foi Presidente da nação, ganha muitíssimo bem por palestras na gringa, que poderia ter apartamento em Paris se assim desejasse, mas que até hoje mora em São Bernardo?”, “Por que FH é celebrado por todos os que bradam contra a corrupção e contra o uso imoral do dinheiro público se foi aquele que comprou o Congresso para poder se reeleger?”, “Por que não se ataca a sonegação e a evasão com a mesma garra que se ataca a corrupção se elas custam muitíssimo mais aos cofres públicos do que a corrupção?”, ‘Por que, aliás, não se fala em combater com fúria a sonegação e a evasão?”

Mas voltando aos que me serviam, era apenas natural que essas pessoas arrumassem a cama em que dormi, cozinhassem a comida que eu precisava comer e lavassem a louça que eu sujei. A vida era para ser assim. Talvez, quem sabe, se se esforçassem mais, um dia chegassem perto desse lugar que já era meu sem que eu tivesse me esforçado muito.

Não sei exatamente como a transformação se deu, já fiz uma tentativa de escrever a respeito dela nesse texto aqui, mas aos poucos fui tomando conhecimento de uma outra realidade, passei a entender o que era de fato o privilégio, o que eram direitos, como se dava a exploração do homem pelo homem, de que forma os sistemas de poder seguiam se perpetuando e mantendo o dinheiro nas mesmas mãos por gerações e gerações.

Aos poucos fui entendendo como esse cenário seguia sedimentando racismos, homofobias, misoginias e machismos, fui percebendo como o atual sistema se baseia no acúmulo desenfreado de bens e de poder, e que essa sanha não nos pode nos levar a lugar algum, muito menos a esse destino tão desejado chamado felicidade.

Mas em 2002, quando Lula foi eleito, cheguei a pensar que tudo estava perdido – porque, uma vez tendo nascido lá em cima, a gente de fato pode se convencer que há homens que nasceram para mandar e outros que nasceram para serem mandados, e Lula estava invertendo isso, o que era perigosíssimo: ele provavelmente não sabia regra de três, ou em que ano a América foi descoberta. Lula, aliás, mal sabia falar a nosso língua, como poderia ser presidente?

Só que o pernambucano de voz rouca foi mudando a cara do Brasil, e comecei a ver minha faxineira ir passar as férias no interior do Alagoas de avião, a filha dela na Universidade, ela se vestindo com outras roupas e a me encarando de um jeito mais soberano. De repente eu ia a Europa e aos Estados Unidos e nosso passaporte, antes ridicularizado, era agora celebrado. O que estava acontecendo? Lula estava acontecendo, e constatar isso foi perturbador e demolidor para mim (aqui uma matéria bastante completa feita pelo Nexo a respeito do saldo social e econômico dos governos Lula/Dilma)

Ainda que eu tenha infinitas críticas à forma como todo esse processo foi executado, e a tudo o que deixou de ser feito durante os anos de PT no poder, não me sinto capaz de, diante de todas as injustiças que estão sendo cometidas contra Lula, criticá-lo mais. Não cabem mais críticas a partir do momento em que o ser humano passa a ser vítima de tanta crueldade, de tanta perseguição, de tanto ódio (Mas minha colega de profissão, a premiada jornalista Eliane Brum, foi capaz de analisar o momento de forma irrepreensível, fazendo as críticas devidas e necessárias ao processo, à prisão, a Lula e ao sistema)

Quando me perguntam se eu realmente acho que ele não sabia de nada, e que não participou de nada, apenas repito o que diz minha namorada (que, aliás, é uma mulher lindíssima, brilhante e que beija muito bem): que tanto faz o que eu acho porque para que se condene alguém é preciso de provas, e nessa hora o que eu acho ou deixo de achar não tem nenhum valor.

Digo ainda que não se pode provar uma negativa ou uma intenção, e que Lula não pode, assim, provar que não comprou coisa alguma, como não se pode provar que ele um dia teve a intenção de comprar porque, outra vez, não há como provar negativas ou intenções. E que, apesar de essa observação ser bastante óbvia, as pessoas, movidas por um ódio cego, já nem mais reparam em um princípio tão básico, um que elas gostariam de usar em nome delas mesmas ou daqueles que amam porque trata-se de um direito constitucional que protege não apenas a Lula mas a todos nós, o da presunção da inocência.

E para terminar, digo que o que acho de verdade é que tirar a liberdade de uma outra pessoa, de qualquer pessoa, gostemos dela ou não, é um assunto tão sério, mas tão sério, que a menos que haja provas incontestáveis, e um julgamento que esgote todos os recursos da defesa e finalmente se encerre, prender é uma imoralidade.

E trata-se de uma lição tão básica, dada através de exemplos claros e tristes que ficaram pela história da humanidade, que é bastante curioso que não pensemos todos assim e não estejamos todos gritando pela liberdade de Lula.

Dois mil e dezoito marca, aliás, os 50 anos da morte de Martin Luther King e o centenário de Nelson Mandela, dois homens que já estiveram onde está Lula: julgados, condenados e moralmente destruídos por um sistema judiciário tendencioso e pelas classes dominantes – que levam de rebote nessa algazarra uma classe média sedenta para se identificar com a elite – e homens que a história tratou de absolver.

Para minha grande sorte na vida, teve um dia, depois de muitos anos, em que eu finalmente enxerguei que era uma mulher pequena, aprisionada em minhas certezas e meus ódios, dentro dos solitários castelos de meus privilégios. E então minha consciência se expandiu, e consciências expandidas não atrofiam mais.

De que importa falar o português correto e seguir perpetuando opressões? Mais vale falar tudo errado e fazer políticas públicas que beneficiem a população carente e abandonada. Mais vale não saber quem foi Epicuro e acabar com a fome de 40 milhões. Mais vale não falar o plural e inaugurar 18 universidades federais. Muito mais vale não ser capaz de usar mesóclise mas livrar o Brasil das garras do FMI e agigantá-lo diplomaticamente. O que o Brasil cresceu nos anos Lula foi uma barbaridade (podemos avaliar todos os índices econômicos, comparar com o que fez FH, e o raio-x é uma goleada para Lula, basta clicar aqui para saber), e contra isso não há argumentos a não ser o pior e mais nocivo deles: o preconceito.

Inteligência, afinal, não tem nada a ver com escolarização; e elegância não é exatamente escolher os mais confortáveis sapatênis do mercado, mas tratar todos e todas, seja ele ou ela o presidente americano ou a moça que serviu o almoço no restaurante, com o mesmo respeito e a mesma consideração, havendo ou não câmeras por perto.

Ainda há em mim uma coxinha porque foram anos e anos trabalhada no privilégio cego, mas eu talvez possa conviver com esse meu lado fresco e mimado de modo a não mais fazer uso dele para perpetuar sistemas de poder e de opressão.

Eu talvez possa usar meus privilégios, e todas as oportunidades que tive na vida, para me tornar uma pessoa mais responsável. Talvez possa convencer meus queridos amigos coxas que pobres não precisam de caridade, mas de justiça. Que a busca por igualdade passa por direitos sociais, por um estado forte que seja capaz de diminuir espaços entre as classes e de distribuir riquezas, dando a todos as mesmas chances na vida. Quem sabe?

Somos obras inacabadas, em eterna transformação, nessa busca incansável por sermos melhores, mais justos, mais honestos, mais decentes, menos babacas, menos raivosos, menos preconceituosos, menos intolerantes. Mas essa busca requer disciplina, atenção e esforço contínuos; é o “orai e vigiai” que está nas escrituras, ou a sagrada liberdade de enxergar o outro, como escreveu David Foster Wallace nesse texto que é na verdade uma oração.

O fato é que, por tudo isso, eu adoraria ver Lula candidato em 2018. Porque tenho com ele uma dívida: a de cravar seu nome na urna pela primeira vez na vida. Volta, Lula.

12 pensamentos sobre “Confissões de uma coxinha (ou uma cartinha para Lula)

  1. Que lindo texto, Milly! Compartilho de seu sentimento totalmente. Conviver com a injustiça é das piores sensações que existem. Vivo assim negociando esse sentimento desde o impeachment de Dilma. Agora então essa situação de injustiça flagrante contra Lula é qual soco no estômago, tapa na cara. Revolta, dá gana de ódio, dá muita raiva. Não há palavras suficientes para narrar o sentimento de injustiça. Mas se eles querem nso ver impotentes, estamos aí, escrevendo cartas, ocupando em nome da resistência. É o que se há de fazer perante enormidades.

    Curtir

  2. Ao ler a última frase desabei a chorar. Já compartilhei. Agora digo eu: “Volta Lula, para que eu possa votar de novo em você.”

    Curtir

  3. Milly, lendo seu texto, senti como seu eu o tivesse escrito, apesar de acreditar que nunca o faria tão bem e claramente. Me emocionei e fiquei grata de ver meu pensamento tão bem expressado em suas palavras.

    Curtir

  4. Belo texto Milly, confesso que nunca me interessei por política mas tudo que está acontecendo está mexendo muito comigo. Meu coração está desassossegado. E me sinto triste com tudo. Não sou PT e nunca votei no Lula, mas não é uma questão de partido. Sou contra corrupção, desrespeito, manipulação e injustiça.

    Curtir

  5. O Twitter apresenta este texto como “contendo material sensível ” e não mostra de cara. Censura básica no Twitter

    Curtir

  6. Parabéns! Me identifiquei com seu texto e felizmente somos pessoas conscientes e capazes de evoluir.
    Me representa, bj.

    Curtir

  7. Maravilhoso texto! Que bom que você acordou para esse sentimento mais profundo com a humanidade, que tantos outros, senão todos possam acordar mais rapidamente para que ainda haja solução de arrumação do nosso país!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s