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A comunista de i-Phone

As reações quando manifesto simpatia a ideologias de esquerda ficam entre: “Falô, sua comunista de i-Phone” e “Fácil ser comunista morando em Nova York”. Eu não moro mais em Nova York e sou proprietária de um Samsung Galaxy 7, mas isso não impede que pessoas sigam reagindo dessa forma. Faço parte, para alguns, dessa tal esquerda caviar.

Nesses casos a intenção é a de tornar público aquilo que ele ou ela considera uma grande incoerência: ser comunista e possuir bens ou ostentar coisas que, na opinião dele ou dela, podem ser artigos de luxo. Uma argumentação nessas bases diz mais sobre a falta de conhecimento dessa pessoa do que a respeito do que significa ser de esquerda, comunista ou coisa que o valha.

O comunismo não é e nem prega o que pregam os franciscanos. Esquerdista não faz voto de pobreza; muito pelo contrário. Ser de esquerda não significa ter o sonho de morrer sem um puto e imaginar uma coletividade dentro da qual sejamos todos igualmente miseráveis. Isso está mais para ser capitalista, basta olhar ao redor.

Ser de esquerda é apenas desejar que uma ideologia com mais ênfase no social predomine: incentivos aos que têm menos, assistência do estado aos desprivilegiados, melhor distribuição de renda, maior taxação sobre heranças e fortunas etc e tal.

Ser de esquerda é imaginar um mundo dentro do qual a diferença entre as classes não seja abissal, um mundo dentro do qual ricos sejam ricos, mas onde pobres tenham o mínimo para viver com dignidade, decência e não precisem trabalhar 12 horas por dia enfrentando quatro horas em transporte público capenga. Um mundo dentro do qual as fábricas, empresas, corporações sejam também dos trabalhadores porque dessa forma a diferença salarial entre o patrão e o empregado não seria, como é hoje, de quase 400 vezes. Um mundo dentro do qual cor da pele, sexualidade e gênero não condenem você previamente a nada.

Haveria, nesse mundo, coisas como Apple, Microsoft, hoteis de luxo, restaurantes caros, carros modernos etc. Nem todos poderiam pagar por eles, claro, mas todos teriam acesso a saúde, educação e transporte, o que nivelaria as chances de sucesso e não deixaria ninguém para trás.

Nesse mundo de sonhos a estrutura empresarial seria democrática, com trabalhadores participando de decisões como “o que vamos produzir”, “como vamos produzir” e “como vamos distribuir”. Assim, as decisões tomadas dificilmente prejudicariam a comunidade ou o meio ambiente, e não gerariam enorme desigualdade, ou tiranias, dentro da empresa.

Imaginar que comunismo é aquele regime que obriga todos à miséria não faz sentido sequer histórico. O Stalinismo e o Maoísmo, por exemplo, que nem foram exatamente regimes que usaram o comunismo que Marx analisou – nem perto disso – tampouco chegaram a ser sociedades dentro das quais a miséria imperava. Podemos falar em abusos, censuras e opressão, mas não exatamente em miséria.

Agora, se o assunto é abuso, censura, opressão e miséria podemos analisar o mundo de hoje, regido pelo deus do Livre Mercado (que nunca foi livre, mas esse é assunto para depois).

“Ah, mas o comunismo (sic) matou muita gente”.

E o capitalismo? E a ditadura brasileira? E o regime da Arábia Saudita, aliada-irmã dos Estados Unidos hoje? E o que Israel faz na Palestina? Como se chama isso? Ainda assim é sempre importante dizer que o comunismo que Marx analisou não foi ainda aplicado em nenhuma nação. O que vimos até agora foram variações que se utilizaram muito vaga e levianamente das premissas marxistas.

“Ah, mas isso aí que você prega é uma utopia”.

O que é exatamente uma utopia? Exigir que a diferença entre o salário do CEO e o do trabalhador médio não seja de 400 vezes?  É utopia pensar em uma corporação comandada pelos trabalhadores? A espanhola Mondragon, uma corporação de 15 bilhões de Euros e 85 mil funcionários-sócios, já mostrou que não é. É utopia sonhar com um mundo cujas grandes cidades não exponham uma crescente população de sem-teto e corpos largados pelas esquinas? Eu diria que o que temos hoje é que é uma distopia e que sonhos como esse que eu sonho estão longe de serem utópicos: são apenas humanitários.

“Ah, mas o homem é competitivo e mau por natureza”.

Não há até aqui nada oficial a respeito de uma natureza humana. Cientistas, filósofos, biólogos, historiadores, antropólogos, linguistas etc ainda não chegaram a um consenso sobre isso. Então, esse argumento não tem base alguma e serve tanto quanto: “O homem é colaborativo e afetuoso por natureza”. Vamos portanto deixar essa suposta natureza humana para lá.

O comunismo tampouco sugere que saiamos distribuindo nossos pertences por aí. Isso quem faz é a Cruz Vermelha.

Então talvez seja hora de dizer que vai ter comunista de i-Phone sim. Vai ter comunista comendo caviar e bebendo espumante. Vai ter comunista usando Rimowa e morando em Paris. E que ao tentar ridicularizar isso a pessoa está apenas expondo ignorância histórica e ideológica e não exatamente, como adoraria, revelando incoerências.

5 pensamentos sobre “A comunista de i-Phone

  1. Ainda me surpreendo a cada texto seu. Não sou boa de argumentação, os fatos me escapam, então é maravilhoso me deparar com todos os aqgumentos que eu usaria, pois refletem meu pensamento, porém de forma tão lucidamente articulados. Meus cumprimentos por mais um texto brilhante, Milly.

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  2. Seu texto Milly é simplesmente uma aula de cidadania, de coerência e deixa claro, sem hipocrisia, que a idéia de justiça social não tem absolutamente nada á ver com abrir mão de conquistas pessoais. Sou médica ,atendo numa Santa Casa do interior de Minas Gerais e presenciei esses dias a morte de um jovem que necessitava de uma prótese valvar cardíaca e não teve tempo pra esperar a fila do SUS pra operá-lo. Tinha 37 anos, 3 filhos pequenos, vários sonhos, negro de sorriso aberto que sobe pros olhos. Não tinha de ter morrido, não era a “sua hora”. Era sim, hora de transformar esse país ridiculamente desigual e cruel.

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