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Uma palavrinha sobre o vídeo do Neymar

Eu vi Neymar pela primeira vez quando ele tinha 14 anos. Já tinha escutado falar de um garoto bom de bola que o Santos estava prestes a revelar, mas foi no campo do Nacional, em São Paulo, durante uma Copinha, que eu vi o moleque jogar.

Ele começou a partida no banco e entrou no segundo tempo. Não foram precisos mais do que cinco minutos para que a genialidade dele com a bola nos pés se materializasse. Minha vontade era levantar e aplaudir tudo o que ele fazia. Era muita poesia aquilo que eu estava vendo. Era muito talento. Era arte, pura arte.

Saí de lá com a certeza de que aquele garoto miudinho havia me presenteado com o maior dos presentes: o entendimento do que estamos fazendo aqui. São segundos desse entendimento, mas ele fica na gente de alguma forma porque a arte, ao revelar que somos feitos de algum tipo de graça e de sublimação, nos conecta e eleva.

Neymar nasceu com um dom: o dom de fazer arte com os pés, com o corpo, com uma bola.

Infelizmente seu pai entendeu que havia ali um sentido para a sua própria vida, e, com ele, dois mil anos de aposentadoria. E Neymar se transformou em produto.

O menino pequenino que tanto emocionava foi então tratado como mercadoria. Cresceu, virou homem, perdeu a humanidade. Como um produto tudo nele é construído para dar lucro. E um bom produto não pode ter falhas. Um bom produto, para ser consumido, precisa ser forte, infalível, perfeito.

Um bom produto, mesmo quando fracassa, não pede desculpas. Um bom produto, quando tropeça, cria campanha de marketing e lucra ainda mais com o que parecia ter sido um fracasso.

Vivemos num mundo carente de verdades, e Neymar é uma bem acabada mercadoria das instituições que monetarizam todas as coisas.

Acontece que não somos capazes de nos conectar com o que não soa humano. Humano é errar, fazer merda, cair, cair outra vez, afundar, fracassar, mergulhar na dor e, quem sabe, dar a volta por cima.

E voltas por cima não são patrocinadas. Voltas por cima não são textos publicitários. Voltas por cima não são estratégias de marketing. Voltas por cima demoram e seguem o tempo da vida, que nunca é o nosso tempo, ou o tempo dos nossos desejos e vontades. Nesse sentido, Adriano, Ronaldo, Casagrande, Maradona são craques com os quais podemos nos conectar.

Me parece que aquele garoto que eu vi jogar no campo do Nacional é uma vítima do homem que o criou. Para que não haja dúvidas, a camisa dele carrega uma referência ao criador: afinal, por que o Jr. depois de um nome tão único? Porque o pai está em campo com ele. E é exatamente isso que parece ofuscar e manchar a jornada do craque.

O texto lido por Neymar sobre ele mesmo, mas escrito por um publicitário, é carente de empatia, de simpatia, de paixão, de humildade, de qualquer vestígio de verdade.

Ao final Neymar diz: “quando eu fico de pé o Brasil inteiro levanta” (tem um “parça” no meio da frase, o que serve apenas para avacalhar ainda mais a peça publicitária).

Num país que vive uma das piores fases da sua história, que sofre com uma desigualdade crescente, que definha depois de um golpe de estado, a frase, dita por um dos homens mais ricos do mundo, soa piegas, vazia, vulgar e até ofensiva.

Quando uma celebridade bilionária pede ajuda para ficar de pé de tombos que ela mesma criou, sem ter a capacidade de enxergar o mundo real desabando ao seu lado, as pessoas não são capazes de se deixar afetar, ou comover.

Uma pena. O menino que eu vi no campo do Nacional era um gênio. O homem que o menino virou é, até aqui, um disfarce.


Acho que, para arrematar, vale citar um verdadeiro gênio, um que sucumbiu à crueldade da vida e se retirou de cena, mas não sem antes nos deixar de herança palavras cheias de beleza e de sabedoria, David Foster Wallace:

O mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos

17 pensamentos sobre “Uma palavrinha sobre o vídeo do Neymar

  1. Texto irretocável. Ao contrário do reproduzido pelo publicitário, que ñ passa de um texto cretino e desrespeitoso.

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  2. Uma leitura perfeita, sensível e de rara sensatez. Seu post me fez muito bem, é uma “fagulha” de luz em tempos tão obscuros. Parabéns e obrigado por partilhar tão brilhante olhar!

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  3. Pingback: Uma palavrinha sobre o vídeo do Neymar | Blog da Milly | O LADO ESCURO DA LUA

  4. Fantástico. Profundo e reflexivo o texto nos leva não só à analogia do garoto propaganda criado para ser produto, como também a um exame interno, subjetivo, além é claro de explicitar o que o mercado é capaz de fazer com “pessoas”.

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  5. Pingback: Uma palavrinha sobre o vídeo do Neymar - Ultrajano

  6. Milly, parabéns pelo excelente texto, pena que ele não vai chegar no Neymar. A junta marketing vai bloquear. Uma pena. O Neymar deveria lê-lo é repensar a sua carreira. Abraços

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