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Uma realidade chamada Bolsonaro

O grande tabu moderno não é debater racismo, homofobia, casamento gay, direito trans, aborto, sexo anal. O grande tabu moderno é debater o sistema capitalista.

Se numa mesa de bar você quiser discutir, por exemplo, casamento gay ou aborto, pode até não encontrar simpatizantes, mas não será silenciado. Agora, basta você começar uma crítica ao capitalismo para que alguém se irrite: “Ah, tá. Bom mesmo é o comunismo.” É esse pensamento simplório e estreito que vai nos matar.

Com um pouco de paciência e boa vontade é possível entender algumas coisas.

O maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos, hoje está assim: os 10% mais ricos têm 50% da riqueza do país. O 1% mais rico, tem 20%. Enquanto o salário mínimo é menor do que 10 dólares por hora, CEOs das grandes corporações ganham bilhões em meses. Desde 1970 não há aumento real de salário para o trabalhador americano. É a maior desigualdade em um século.

A economia mundial não está diferente: o 1% mais rico controla 40% da riqueza. Mas sobre isso, que deveria ser manchete diária de jornais, pouco se fala. Ao contrário: fala-se de uma falsa recuperação da economia, que apenas significa mais riqueza gerada e concentrada nas mãos dos mesmos.

Não é preciso ser economista ou sociólogo para perceber como a desigualdade está se acentuando. E isso fica claro com um simples passeio por qualquer metrópole, seja aqui ou fora daqui.

Estatísticas, se não analisadas, apenas confirmam ou negam interesses prévios.

Para saber o nível do desemprego, por exemplo, uma pesquisa de duas perguntas é feita: “você está trabalhando?” Se a resposta é ‘sim’ essa pessoa entra na conta como “empregada”. Se a resposta é “não”, uma outra pergunta é feita: “Você está procurando emprego?”. Se a resposta é “sim”, a pessoa entra na conta do “desemprego”. Se a resposta é “não”, ela não é levada em consideração.

Nos últimos 10 anos, desde a crise de 2008, muita gente simplesmente desistiu de procurar emprego no mundo. São pessoas que ou estão morando nas ruas, ou voltaram para a casa dos pais, ou passaram a executar trabalhos informais.

A realidade vivida é a completa deterioração das condições de trabalho: salários baixos, carga horária alta, ausência de segurança, de benefícios, esgotamento, endividamento, angustia, depressão etc.

Não por acaso os índices de suicídio aumentam no mundo inteiro.

Como não se fala a respeito dessa completa deterioração do capitalismo, a classe trabalhadora acaba se enfurecendo pelos motivos errados: refugiados, imigrantes, migrantes, impostos, políticas de incentivo e assistência social, e assim, desesperada com a vida que leva, se conecta com o discurso de ira e preconceitos de candidatos como Trump e Bolsonaro.

Isso não é segredo, isso é apenas ignorado. Para explicar o “fenômeno” Bolsonaro acabam lançando mil teorias estranhas e de difícil entendimento, dando voltas e voltas para desviar do colapso do sistema capitalista, quando essa é apenas a explicação mais óbvia e evidente.

Enquanto isso, o capitalismo vai se reinventando em nome do acúmulo. E a verdade é que a beleza do sistema deve ser apreciada. Vamos a um exemplo:

Recentemente, Trump cortou ainda mais os impostos pagos pelas grandes corporações, que caem há décadas e agora beiram os 20% (Obama deixou essa taxa em mais ou menos 35%). A desculpa para que o governo ajude os grandes empresários é sempre a mesma, lá ou cá: com mais dinheiro empresários gerarão empregos.

Só que empresários não geram empregos porque acordam felizes numa segunda-feira ensolarada, abrem as janelas de suas mansões, olham o céu azul e dizem: “Que dia lindo. Hoje vou gerar 100 empregos”.

Empresário, e isso precisa ficar bastante claro, não gera emprego; o que gera emprego é demanda.

E não há demanda porque a classe trabalhadora está sem dinheiro para comprar, está endividada, esgotada e tentando sobreviver.

Assim, o dinheiro que as corporações não estão gastando com impostos está sendo usado para (preparem-se porque agora vem a melhor parte) comprar ações delas mesmas.

Por que? Porque se o preço da ação aumenta, aumenta o bônus dos executivos dessas corporações, que está diretamente ligado ao preço das ações.

E quem decide como será usado o dinheiro que não está sendo gasto em impostos? Ele mesmo: o executivo beneficiado com a compra das ações.

O sistema é genial em sua capacidade de acumular riqueza, e em pouca coisa além disso.

Então, a menos que você faça parte do 1%, não há como estar feliz com esse absurdo.

Se as coisas continuarem assim chegaremos a um ponto de ebulição semelhante ao que levou Maria Antonieta a ter a cabeça separada do corpo pelo povo ensandecido em 1789, colocando fim ao sistema econômico que o capitalismo enterrou: o feudalismo.

Sistemas morrem porque tudo morre. Sistemas que ao se desenvolver aprofundam desigualdades não sobrevivem, mesmo que a iminência de sua morte seja tratada como segredo de estado.

Enquanto não sentarmos para debater o fim do capitalismo de forma declarada e aberta, humanóides como Bolsonaro seguirão  a nos ameaçar com seu discurso fascista porque a estratégia de culpar minorias políticas pelo fracasso da economia vai encontrar aderência – como já encontrou em outras épocas de nossa história.

E a raiva que Bolsonaro imprime em seu tosco discurso de ódio tem aceitação porque é a mesma que sente o trabalhador que foi abandonado pelo sistema.

A quem interessa que todo esse assunto não seja debatido? Aos donos das corporações. Os mesmos que fazem as leis e controlam a sociedade como um todo.

A eles não interessa saber que seu comportamento ganancioso pode acabar com o mundo. Não vem ao caso o que vai acontecer no futuro porque o que querem é desfrutar o presente, mesmo que sejam completamente incapazes de gastar tudo o que têm.

Como Luis XV quando alertado da enorme pobreza que o cercava, em contraste com os jardins extravagantes que construiu em seu palácio, os donos das grandes fortunas todos os dias parecem nos dizer debochadamente: “Après moi, le déluge“: “depois de mim, o dilúvio”.

Para quem quiser saber mais, basta clicar na fonte que usei para escrever esse texto: aqui.

6 pensamentos sobre “Uma realidade chamada Bolsonaro

  1. Conseguiram fazer uma propaganda anti comunista tão fortemente intensa que a seculos não se consegue pelo menos criar uma conversa saudável sobre esquerda. Quando fica só no “Bom mesmo é o Comunismo” ainda ta de boas, você pode falar “Eu acredito que é um caminho”. Pior qnd a resposta é “ENTAO DA SUA CASA E SEU CARRO, VAI PRA CUBA, VAI PRA VENEZUELA”

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