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Que os orixás nos protejam

São cinco e treze da manhã e eu estou acordada desde às duas. Faz alguns dias que acordo no meio da noite em sobressalto, suando e com o coração acelerado. O que pode estar causando essa ansiedade? Minha vida está bastante boa: tenho empregos que me pagam bem, moro em um apartamento lindo, minha saúde é ótima, sou cercada por amigos que me amam e estou apaixonada por uma mulher linda que está também apaixonada por mim. O que então tá pegando?

Penso nisso enquanto ando até a estação de metro e passo por corpos de seres humanos largados pela rua e vejo outros revirando lixos. Tá pegando que eu estou preocupada com o dia de amanhã. Nesse caso em sentido literal e figurado. Tá pegando o pânico de votarmos (quanta ironia) o fim da democracia, o começo de um período de sombras e autoritarismo. Um período em que minorias políticas, como negros, gays, mulheres, trans, população das periferias, das comunidades e empregados, serão ainda mais massacradas. Um período em que homens fortemente armados estarão pelas cidades a espreita de identificar comportamentos que julguem imorais e desviantes.

Mas as coisas já não estão boas e mesmo se vencermos o fascismo elas seguirão ruins por algum tempo.

Esses grupos de homens armados que pregam a própria superioridade e o ódio ao que é diferente já estão pelas ruas. Em menos de dez dias soube de amigas que tiveram que sair de vagões de metrô escutando coisas do tipo: “é gostosa mas tem cara de esquerdinha”, e de brigas de rua que acabaram com alguém sacando uma arma. O ódio foi autorizado, e ele não precisa estar em planos de governo. Ele é autorizado quando o “símbolo totêmico da identificação do macho” diz coisas como: filho gay tem que levar porrada, mulheres são resultado de uma fraquejada, e afro-descendentes não fazem nada e não servem nem para procriar.

Fica assim legitimada a barbárie.

Em relação aos corpos caídos pelas ruas de São Paulo não é possível saber se estão vivos ou mortos e, assim como eu, as pessoas que passam pelas ruas do centro apenas desviam deles porque, afinal, é preciso chegar ao trabalho, é preciso pagar as prestações, é preciso dar conta das tarefas do dia, voltar para casa para dormir algumas horas e começar tudo outra vez. Mas os corpos estão ali, parece haver mais a cada dia, e eles nos dizem coisas.

O efeito de uma sociedade que se deteriora a olhos vistos é devastador. Não apenas para aqueles que foram abandonados pelo sistema e que, sem emprego, sem casa e sem esperança passam a ser zumbis, mas para todos capazes de perceber a deterioração a nossos pés.

Internalizamos sofrimentos que a princípio não são exatamente nossos, mas ao mesmo tempo também são porque é impossível enxergar alguém viver como um bicho sem ser inundado por alguma dor. Esgotados, apressados e angustiados, buscamos culpados.

O noticiário é rápido em apontar o dedo e contar que existe sim um culpado: ele se chama  corrupção. Tudo estaria resolvido se pudéssemos eliminá-la. Porque, tentam nos mostrar, corrupção não é uma relação estrutural entre o sistema político e econômico que está sendo construída há pelo menos quatro séculos no Brasil; corrupção é apenas desvio de caráter.

E se é desvio de caráter é possível exterminá-la com operações que se baseiam no moralismo punitivista: vamos pegar uns empresários aqui, uns políticos ali, fazer eles delatarem coisas e pronto, o Brasil estará livre da corrupção e sua vida será maravilhosa como nunca antes.

É preciso dar um rosto à corrupção e no Brasil ela ganhou o rosto do PT. O verdadeito bastião da moral hoje é o anti-petista. O anti-petista é o cara que luta por um Brasil decente, livre da corrupção e pronto para brilhar.

A corrupção é um mal enorme, claro. Assim como a evasão, a exploração e a sonegação. Mas só falamos de corrupção, sem tocar nas demais. A corrupção foi eleita como inimiga porque é mais facilmente associada a políticos e assim é razoável tentar convencer você e eu de que, de quatro em quatro anos, temos a chance de votar e mudar essa putaria.

É um teatro. A putaria não muda, como sabemos.

A corrupção não é apenas um desvio de caráter. No Brasil ela está amalgamada ao cimento que faz a ponte entre o sistema político e econômico. Quem tentar demolir essa construção macabra será eliminado, uma Dilma por vez.

Lutar contra a corrupção não é erguer operações “seca-gelo” e ir colocando meia dúzia atrás das grades extraindo deles delações premiadas que diminuem a pena do suposto criminoso sem alterar a estrutura da putaria. Para lutar contra a corrupção é preciso demolir o sistema e só se faz isso com investimentos sociais.

Com investimento social a renda é finalmente distribuída e a base da pirâmide é chacoalhada. Quem estava na base começa a se movimentar e são essas pessoas que têm a capacidade de mudar tudo: elas hoje estão nas periferias, nos morros, nas esquinas. São essas as vozes que precisam ser escutadas. Elas nunca participaram do jogo, nunca foram ouvidas, nunca importaram para além do voto que depositam ou das prestações que são capazes de pagar.

Houve um período em que essas pessoas foram levadas em consideração, mas era justamente quando o PT estava no poder e, como já está estabelecido, o PT é a causa de todos os males do Brasil. Então não se fala nisso.

Pior: o PT era o partido que iria nos salvar e ele fracassou, então nada mais natural que a solução para a uma sociedade boa seja alguma coisa radicalmente oposta ao que fez o PT nos 14 anos em que esteve no poder. A agenda do PT acabou com o Brasil, dizem.

Por tudo isso talvez estejamos prestes a mergulhar em tempos sombrios. Tempos em que uma minoria branca e hetero-normativizada, repleta de armas e ódios, vai dar as regras.

Será que ainda poderei andar de mãos dadas na rua com minha namorada? Será que os corpos largados pelas esquinas serão queimados para deleite de machos sanguinários que se sentirão protegidos pelas instituições? Será que poderei seguir escrevendo criticamente sem ter minha casa invadida e eu levada para uma cela ou para lugares piores? Será que o abuso sexual de mulheres deixará de ser investigado e será legitimado contra todas as que não forem recatadas e do lar?

Essas coisas não me saem da cabeça e o sono vai embora. Eu realmente espero que no dia 7 de outubro encontremos a trilha do amor e não a do ódio; a da democracia e não a do fascismo, a da inclusão e não a da exclusão.

Mas, se não der, então teremos que nos recolher, reagrupar e fazer o que nos cabe: lutar ainda mais por um mundo inclusivo e livre de misérias e preconceitos. Vai nos custar muito, vai nos custar vidas, vai nos custar tudo o que temos, mas pelo menos nossos filhos e netos não terão que passar pelo que, outra vez, estamos prestes a passar.

Termino com uma citação de Theodor Adorno tirada de seu texto “A Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda”, de 1951.

Adorno:

“Um dos expedientes básicos da propaganda personalizada fascista é o conceito de ‘pequeno grande homem’, da pessoa que sugere ao  mesmo tempo onipotência e a idéia de que ele é apenas mais um na multidão. A ambivalência psicológica ajuda a fazer o milagre social. A imagem do líder gratifica o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade e ser ele mesmo essa autoridade”.

É o que veremos se o fascismo vencer nas urnas: pequenos-grandes homens cheios de autoridade para moldar o mundo a seus valores morais.

Que os orixás nos protejam a todos.

E se você chegou até aqui deixo também alguns dados a respeito da situação do Brasil depois de 14 anos de administração petista.

Para o bem ou para o mal talvez valha colocar o partido em contexto: longe de ser o bastião moral que por décadas pregou ser, mas também longe de ser o demônio que nos trouxe para essa situação sombria.

Para saber como chegamos até aqui há inúmeras explicações e elas culminam com as políticas neo-liberais e de austeridade adotadas por Michel Temer e sua turma e passam pela descaracterização da direita brasileira, que se transformou em extrema-direita e deu espaço para que aprendizes de ditadores ganhassem poder.

Os dados abaixo são de 2014 e eles não refletem a imagem de um país quebrado. Pensem o que quiserem, mas não descartem esses números:

5 trilhões de reais de PIB

370 bilhões de dólares em reservas

Crédito internacional de R$ 1 trilhão

EUA deviam 500 bilhões para o Brasil

Brasil não devia mais para FMI; passou a ser, aliás, seu credor

7 milhões de estudantes universitários (crescimento de 81% entre 2003 e 2012)

Mais de 400 novas universidades técnicas

18 novas universidades federais

Duplicou produção de energia

Mais de 3 milhões de famílias receberam energia elétrica através do programa o Luz Para Todos

O pré –sal, encontrado durante a administração de Lula, movimentaria R$ 3,7 trilhões e criaria 87 milhões de vagas de trabalho nos próximos 30 anos (agora está sendo entregue ao capital estrangeiro)

Submarino nuclear estava sendo construído a fim de proteger nossas reservas de pré-sal

Salário mínimo foi de R$400 para R$900

36 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema entre 2003 e 2013

5 pensamentos sobre “Que os orixás nos protejam

  1. Olá Milly .
    Faltou voce acrescentar nos dados econômicos apresentados , o crescimento dos países das Américas . Os anos 2000 foram anos que o mundo inteiro cresceu . vivia-se um voo com céu de brigadeiro . E o Brasil ficou atrás de todos os países , com excessão da Venezuela , que ficamos à frente .
    Faltou indicar também , que você não colocou em seu post , por não saber , ou por desconhecimento , que os anos entre 2011 e 2016 , de novo o Brasil perdeu para todos os países das Américas , ficando novamente à frente Venezuela .Essa informação é importante pois indica que mesmo que as vida das pessoas melhoraram nos anos 2000 , o que de fato é verdade , mostra como esses governos foram incompetentes , pois um país com 200 milhões de pessoas , parque industrial importante , agricultura forte , ficamos atrás de países como ……..Guiana , Haiti , Guatemala , Costa Rica , Granada , Barbados , Belize , Republica Dominicana , Paraguai. Não vou citar EUA , Colombia , Chile , Canadá , pois me parece desnecessário …
    E. T. : Essa copa do Brasil é nóisss … !!!
    abs.

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  2. Seu texto não precisa de retoques! Infelizmente você está certa. Já vivi 67 anos e poucas vezes fiquei tão preocupado com a onda de conservadorismo que estamos vivendo e que pelo jeito, vai ser institucionalizada. Vai passar pois não há futuro para uma sociedade baseada na desigualdade e no preconceito.

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