Uncategorized

Uma sapatão em família bolsonarista

Eu não sei quantas pessoas da minha família votam em Jair Bolsonaro. Não tenho coragem de perguntar no grupo de Whatsapp. Não tenho sequer coragem de olhar o que se posta no grupo por medo de ficar ainda mais devastada. Mas sei que minha mãe, me vendo aos prantos no dia da eleição, pediu para eu ficar calma e perguntou em quem eu gostaria que ela votasse para que ficasse tudo bem e eu parasse de chorar.

É bastante difícil explicar o que sente alguém que vê pessoas por quem nutrimos afeto votando naqueles que acham que você é doente, uma aberração, deveria ser espancado e não faria falta se morresse. “As coisas que ele diz sobre vocês são um detalhe; nossos problemas são maiores, são econômicos”, justificam.

De fato, com 14 milhões de desempregados, fora os milhões que desistiram de procurar empregos, nossos problemas são econômicos. Como escreveu Bertold Brecht: primeiro o estômago, depois a gente fala de moral.

Mas se a questão é economia o candidato do PSL é igualmente inadequado. Não há em sua longa e dormente carreira absolutamente nada que possa fazer alguém acreditar que ele reúna alguma condição de nos tirar dessa situação.

Basta ler o que “seus economistas” propõe: seria um plano semelhante ao de Michel Temer só que ainda mais elitista e privatizante.

Frases associadas ao fim do 13 salário, ao fim da carteira de trabalho, ao fim dos direitos trabalhistas (“é preciso escolher entre trabalho e direitos” é o que ele diz) fazem parte dos discursos dele e de seus partidários.

Viver de salário e compactuar com esses valores é como ser a barata e votar no inseticida.

Então, com todo o respeito a quem se convence de que está votando nele por motivos econômicos, eu imploraria para que fosse dar uma espiada no plano dele, e nas coisas que ele diz ou, mais importante, já diria Leminski, nas coisas que ele não diz.

Não faz também sentido achar que ele vai ser o grande moralizador da cena política brasileira: um cara que teve funcionária fantasma, que apoia auxilio-moradia à milionário, que é acusado de ameaçar matar a ex-mulher e arrombar um cofre.

Justificar o voto no ex-militar recorrendo a aspectos políticos e econômicos de sua campanha é brincar com nossa capacidade de perceber o perigo que é sermos comandados por alguém de valores tão baixos munido de tanto poder.

Falemos agora um pouco de moral para entender por que seria devastador que acabássemos optando por um caminho que dificultasse ainda mais a vida de todas as minorias políticas.

“Ele não vai fazer as coisas que ele fala”, me dizem alguns para tentar moralizar o voto. Foi assim que Hitler chegou ao poder, mas usar esse exemplo não parece sensibilizar as pessoas que estão tentando se convencer que a comparação é exagerada.

A comparação não é exagerada na medida em que as desculpas para eleger o ditador  na época eram as mesmas que escutamos hoje: “Ele não vai fazer o que fala a respeito de gays e judeus”.

E o que ele fala é, para dizer o mínimo, bastante perturbador e cruel.

Vou me restringir a meu ponto de vista específico e abordar o que ele pensa a respeito de gays.

Encorajar porrada em filho gay e dizer que “ninguém quer chegar em casa e ver o filho brincar de boneca”, para ficar apenas em duas de suas crenças amplamente alardeadas por ele e seus seguidores, são coisas profundamente cruéis e desumanizante e não existe forma mais nociva de violência do que não reconhecer a humanidade no outro.

Há alguns dias a imagem de torcedores de um time de futebol gritando animadamente em uma estação de metrô que o candidato deles seria eleito e eles então matariam todos os homossexuais viralizou. Como lésbica, ver essa imagem me dá medo, me causa dor e me desumaniza.

Já não temos muita liberdade de ir e vir, já vivemos cercados de medo, e justamente quando nossas vidas pareciam estar melhorando voltamos a flertar com as trevas.

“Não é preciso incluir no programa  de governo referências a um plano de extermínio”, disse o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares. “Não é preciso apresentar publicamente um programa genocida. Não é necessário exaltar a violência e o preconceito explicitamente, ainda que isso tenha sido feito [pelo candidato em questão]. O que coloca em circulação a barbárie não está nos argumentos racionais da candidatura ou nas propostas de políticas públicas. A mensagem já foi passada á sociedade, e a mensagem se resume a uma autorização: autorização à barbárie. A morte foi convocada, a barbárie está autorizada. O horror saiu do armário.”

Eu estou com medo. Mas medo não é capaz de me paralisar. Não esse que se refere a eu ter que ter a coragem de ser quem sou. O que tá pegando é o desamparo de ver aqueles que eu amo votando nesse bolsonarismo tão cruel, tão pequeno, tão cheio de ódios e preconceitos.

Todo gay e toda a lésbica que conheço estão destroçados e quase todos tendo que lidar com as feridas de reconhecer que amigos e parentes, a despeito do ódio declarado a homossexuais que o bolsonarismo exala, apóiam a chapa.

Não há nada que o PT possa ter feito nos 14 anos em que esteve no poder que justifique a família de um gay ou de uma lésbica a votar em uma ideologia que autoriza nossa morte. É uma sensação de completo abandono fazer parte de uma família assim.

As próximas semanas serão difíceis. Talvez as mais difíceis de nossas vidas. Que encontremos alguma paz. Que encontremos acolhimento. Que possamos nos unir em novos afetos. E que aqueles que se sentem abandonados por suas famílias descubram outras fontes de amor que possa ampará-los e ampará-las.

Em nome do amor, que o Brasil ache uma forma de seguir pela trilha que não é a do medo, que não é a do ódio, que não é a do preconceito.

11 pensamentos sobre “Uma sapatão em família bolsonarista

  1. Vc ta certa mais infelizmente. Nao vai mudar a cabeça de muita gente com seus argumentos.sei bem o que vc ta sentido mais tenta manter a calma. Ja disse tudo q vc acha agora. So aguardar conte comigo nao qr ver vc assim mais infelizmnne nao tem como nao fc assim. Cada um pensa e de uma maneira. Fique calma e vamos aguardar vc ja se expressou agora e melhor se calar e aguardar. Bjo

    Curtir

  2. Milly, muito obrigado por escrever e transcender o que estamos sentindo nesse exato momento. Seus textos são muito importantes, pois nos sentimos menos sós. Seremos resistência, e a união das pessoas que acreditam na liberdade e no direito à plenitude e felicidade do próximo há de vencer ! Grande beijo !

    Curtir

  3. Milly, não te conheço mas adoro seu blog, que às vezes me chega por e-mail. Eu compartilho com você o horror e o medo do que estamos vivendo. Não consigo entender pessoas de boa índole votar nesse filhote de Belzebu. Quando é o povo ignorante, ainda damos o desconto da ignorância, mesmo assim é difícil entender pobres, negros, gays, lésbicas, mulheres, votando nele. Um negro pobre e gay então, como já vi, é totalmente fora do meu entendimento. Se for mulher então, pior ainda.
    Já os que têm cultura, a única conclusão a que chego é que são pessoas exatamente iguais a ele, com todos aqueles preconceitos peçonhentos guardados lá no fundo do armário e que agora estão se sentindo autorizados a vir à tona. Quando é na nossa família então, é muito doloroso.
    Nunca imaginei que houvesse tanto fascista no Brasil. A caixa de Pandora foi aberta e os monstros vieram pra baixo de nossas camas.
    Sou heterossexual, mas baseio minha vida no respeito ao outro e a todas as diversidades humanas. Criei meu filho assim e hoje vejo, com muito orgulho, minha neta de 8 anos sendo criada da mesma maneira por filho e nora.
    Tenho 74 anos, sou psicóloga aposentada e me tornei atriz de teatro quando me aposentei, aos 61 anos. Teatro sempre foi minha paixão.
    Só lhe dei essas informações para você ter uma idéia da humilde pessoa que te admira muito, pelas idéias e opiniões e sensibilidade que você nos passa através de seu blog.
    Aliás gostaria de recebê-lo com mais frequência, só recebo de vez em quando.
    Saiba que tem em mim uma amiga.
    Se precisar, pode contar comigo.
    Eu adoraria receber uma resposta sua.
    Receba um beijo carinhoso e um grande abraço bem aconchegante.

    Curtir

  4. Prezada Milly, há algum tempo leio seus textos com grande admiração. Eles são sempre eivados de muita sinceridade e sensibilidade. Este me causou choro compulsivo inclusive. Apesar de não fazer parte da comunidade LGBT tenho pessoas próximas que o são, e minha preocupação com elas neste momento é gigantesca. Não consigo sequer, no grupo da família, fazer com que as pessoas percebam isso. Ainda que em minha família não tenha diretamente (irmã, irmão, tia, tio sobrinhos,etc) alguém da comunidade LGBT eles ainda não perceberam que esta, e outras questões, a partir de um governo “Bolsonarista” serão tratados de uma forma devastadora. Estou enviando o link desta sua crônica para os pequenos grupos de whatsapp, de 3 ou 4 pessoas, para que leiam e espalhem este texto para ver se pelo menos consigo fazer com que os votantes do 17 anulem ou votem em branco, o que já seria uma grande coisa, porque votar no PT já seria uma tarefa por demais hercúlea, infelizmente. Como advogado me coloco a disposição para o que quiseres, nunca atuei em litígios envolvendo a comunidade LGBT mas acho que isso a partir deste momento que vivemos vai mudar…Um grande abraço, um beijão e siga com seus textos, no momento, mais do que corajosos.

    Curtir

    • Muito obrigada ❤
      Entendo que para muita gente seria um esforço grande votar no PT, mas tenho esperança que ao perceberem que tudo é melhor do que o fascismo eles mudem de ideia.
      Agradeço muito seu afeto.
      Beijo carinhoso

      Curtir

  5. Milly, acompanho vc há muito tempo, como tb faz tempo que não comento por aqui. Usei tempos atrás um outro nickname (Zapper).Alem deste blog te acompanho tb no Tweeter. Estou usando este espaço não para tratar deste post, como sempre irrepreensível e particularmente emocionante. O que eu gostaria de tratar é uma questão que tem se tornado recorrente nesta eleição. Tenho visto com frequência que muitos vão votar no Bolsonaro por ódio ao PT. Tenho conversado com muitas pessoas e a grande maioria confronta Bolsonaro X PT. O que é um erro básico. Para haver uma comparação correta é preciso transformar na mesma unidade. Por exemplo, não se compara massa com volume, devemos transformar na mesma unidade, em quilos ou litros para termos a exata dimensão do produto. A comparação que devemos fazer é Bolsonaro X Haddad ou PT X PSL (acho que esse é o nome do partido dele). Qualquer outra comparação é errada. Se há ódio ao PT, o que justifica o amor ao PSL? Racionalmente, Bolsonaro ou Haddad? Desculpe-me a intromissão neste post com um assunto não relacionado, mas foi o espaço que encontrei para entrar em contato com esta minha observação. Bjs.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s