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Carta aberta aos que eu amo

Estamos a algumas horas de ter aquele encontro com a urna. Sei que você está nervoso, assim como eu. Te conheço bem para saber que você leva esse assunto muito a sério, e para saber que você quer um país melhor, mais justo, menos violento.

Como as coisas estão piores do que em muitos anos, e um dos candidatos promete “mudar tudo isso aí” enquanto o outro candidato é daquele partido que você detesta, sua escolha foi quase automática. Nem foi preciso dedicar muito tempo a ela, eu sei.

Até porque o candidato que parece estar tão puto quanto você “com tudo isso aí” diz que vai acabar com os bandidos, então fica mesmo tentador votar nesse cara.

Mas eu sei que quando o seu candidato fala em bandido você imediatamente associa a bandidagem ao corpo vulnerável – e quase sempre negro – da periferia que invade o centro para te assaltar no sinal e, pior, colocar a vida de seus filhos em risco. São os corpos negros sentenciados por uma história de violência, abandono, exploração e humilhação, mas esses aspectos históricos não são percebidos imediatamente, nem levados em consideração.

Tem mesmo essa violência no Brasil de hoje. Mas a verdade é que essa associação entre a violência e o corpo que a pratica é automática, estabelecida por uma certa configuração-padrão com a qual fomos equipados.

Pensar que bandido é o corpo vulnerável da periferia não requer esforço. Esforço é desconstruir essa ideia, que pouco tem de verdade e muito tem de crença; que pouco tem de justiça e muito tem de preconceito.

Mas como desconstruir uma ideia se o candidato que diz que “vai mudar tudo isso aí” segue bailando com a associação desumana?

Como se aprofundar na questão e entender que aquele que nos assusta no sinal nasce da falta de oportunidade igual para todos, da fome, da ausência de saneamento básico e de trabalho?

Nessas coisas seu candidato não vai mexer. Não vai mexer porque para ele basta sair prendendo os mesmos corpos de sempre que tudo vai se resolver.

Então como mudar nossa crença limitante e perceber que o menino de aparência suja e rosto cansado que agora aborda você no sinal é apenas uma criança como a que está no assento de trás do seu carro rindo de alguma coisa que ela vê pelo sistema integrado de entretenimento do automóvel?

Te digo como.

Ou pelo menos te digo como eu fiz para ir me desconstruindo: olhando no olho dessa criança que agora se aproxima do seu carro. Se você olhar com atenção e com afeto verá nela os mesmos olhos de sua filha que agora está no banco de trás.

Essas são as nossas crianças. As crianças de uma sociedade injusta e cruel. Crianças separadas pela desigualdade e por muros que jamais deveriam existir.

Mas eu bem sei, porque já falamos sobre isso, que você concorda que os grandes bandidos do Brasil não habitam exatamente corpos vulneráveis da periferia, ainda que a associação – encorajada por seu candidato – seja automática. Só não sei se você realmente acredita que esses bandidos que moram em condomínios de luxo serão incomodados pelo capitão. Porque te digo: não serão.

O candidato valentão que se acovardou diante de um simples debate de ideias na TV não vai mexer com eles. E eu posso apostar. Já apostamos muitos jogos de bola, e pagamos promessas divertidas. Só que essa não seria apenas mais uma aposta; seria uma aposta em que eu tudo perderia se acabasse ganhando.

Eu também sei que o que te move é uma absoluta falta de esperança. Sei que esse sentimento é real e desesperador.

Mas a mesma falta de esperança que te habita agora habita todos os corpos vulneráveis das periferias. O corpo que te ameaça no sinal é um resíduo do abandono. É um corpo que ficou invisível e que só se faz visível quando está nos servindo ou nos metendo medo. É o corpo que está empilhado nas prisões a espera de julgamento justo. É o corpo que o candidato em que você pretende votar diz não valer muito.

O candidato em que você vai votar não considera esses corpos dignos. Ele os mede em arrobas, como gado. E esses são os corpos que serão (ainda mais) dizimados se ele vencer.

Eu sei da sua índole. Sei que você não concorda com essas coisas. Mas o seu candidato diz essas barbaridades e a gente não pode ignorar o que ele diz. Ele diz coisas que diminuem negros, mulheres e gays. E ele diz claramente o que vai fazer com quem pensa diferente dele. Diz que vai metralhar, espancar, eliminar.

Entre achar que ele diz da boca para fora e achar que ele está avisando o que fará eu não gostaria de pagar para ver. É a minha vida, sabe. E eu tenho outros planos para ela.

Planos sobre os quais muitas vezes a gente já conversou. Lembra?

E agora estamos diante de uma escolha jamais imaginada: optar por votar no partido que você detesta ou votar no candidato que soa meio maluco, mas vai saber se é mesmo ou se, com mãos de ferro, vai dar um jeito nessa putaria. Você quer pagar para ver, eu sei.

Então eu queria dizer o seguinte. Ele não é maluco. Ele não é excêntrico nem polêmico. Não dá nem para dizer que ele é de direita porque esse tipo de sociopatia não tem ideologia. É como Stalin, Mao, Mussolini, Hitler. É a mais completa falta de empatia. É a violência em estado puro. É a barbárie. É a eliminação de quem pensa – e vive – diferente dele.

E ele vai atrás do que chama de bandidagem, referindo-se apenas aos corpos vulneráveis da periferia, e de pessoas como eu, que pensam e se manifestam publicamente contra ele.

Mas eu vou sobreviver. Eu vou lutar. Eu vou prevalecer.

Já o menino do sinal eu não sei. Não há quem olhe por ele. A mãe está ocupada trabalhando. O pai provavelmente já se mandou. O estado lava as mãos. O menino está sozinho e, se o capitão ganhar, virará apenas um alvo ainda mais fácil, um corpo ainda mais descartável.

Então, se eu pudesse te pedir uma coisa seria: não despreza as coisas que seu candidato diz. Não faz uma seleção conveniente do que deve ser levado em consideração e do que pode ser ignorado no discurso desse cara. Considera o que ele diz que te soa atraente e o que ele diz que te soa repulsivo. E pensa: vale o risco? Vale tantas vidas? Vale a dor de quem já tem quase nada?

Se eu pudesse pedir uma segunda coisa seria: nós somos responsáveis pelas crianças da nossa sociedade. Não se tira o sonho de uma criança. De nenhuma delas. No centro ou na periferia. Das de pele clara ou escura. Das de cabelo liso ou crespo. Toda a criança é um universo.

Quando o seu candidato provar que estava falando sério não teremos mais como nos sentar juntos naquela mesa de bar. Não teremos mais como falar do futuro, ver um bom jogo de bola juntos, dizer que nos amamos.

Então, se eu puder te pedir três segundos de afeto no domingo faço isso aqui. Três segundos da sua coragem. Três segundos para mudar de ideia.

Coragem é uma palavra que vem do coração. Amar é um ato de coragem. Demonstrar afeto é outro ato de enorme coragem.

Covardia é a corrupção da prudência. Covardia é não enxergar como seu voto vai afetar a vida dos mais vulneráveis. Covardia vem do medo. E o medo é o oposto do amor.

De frente para a urna, sem que haja testemunhas, sem que haja repressões, sem que haja julgamentos ou qualquer tipo de ódio, fecha os olhos e faz uma pequena e sincera oração.

E nessa hora, protegido pela mais democrática das solidões, aperta o número do candidato que pode, quem sabe, tirar a gente desse estado de virulência e corrosão.

Aperta o número do candidato que tem feito campanha falando de afeto, de respeito, de união e inclusão. Aperta o número do professor, do candidato que, afinal de contas, toca violão e fala de amor.

Vai levar três segundos apertar o tal número, ver o rosto do candidato na tela, pedir silenciosamente que ele construa um país solidário e justo, e depois cravar a tecla “confirma”.

Tô aqui implorando três segundos do seu afeto. Três segundos que podem salvar muitas e muitas vidas. Inclusive a minha.

Vota com coragem, não com covardia; vota com afeto, não com ódio.

Vota na justiça social. Vota no amor. Vota Haddad 13.

8 pensamentos sobre “Carta aberta aos que eu amo

  1. Milly, bom dia. Me chamo Daniela e queria te pedir licença pra lhe dirigir algumas palavras.
    Te escrevo como um agradecimento e um testemunho pra te dizer que você já resgatou minha alma do penhasco algumas vezes.
    Todos nós sabemos que a vida às vezes parece um turbilhão que vai nos engolir. A confusão invade a mente e a ansiedade fica à espreita pra te jogar no precipício, de onde você só consegue enxergar tristeza e escuridão. Foram nesses momentos que suas palavras me trouxeram à superfície e, com a força de algo sagrado, cessaram a tempestade. E isso não aconteceu apenas uma vez. Nesse ano particularmente você já resgatou minha sanidade, minha fé no mundo e sobretudo minha fé em mim mesma algumas vezes. E aí eu leio e releio seus textos e carrego eles debaixo do braço pra ler de novo na tentativa de fixar no meu inconsciente cada palavra, tamanho é o poder delas em mim.
    Senti que precisava te dizer isso agora porque vejo que estamos todos ao mesmo tempo fortes e frágeis, corajosos e amendrontados, desiludidos e cheios de esperança, em um looping de sentimentos que é difícil de gerenciar.
    Então, espero que no meio desse turbilhão que parece que vai te engolir, você encontre palavras que te tragam a superfície e iluminem sua alma, como você já fez comigo. É lei do retorno que isso chama. Que o Universo retorne pra você todo bem que você me fez.

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  2. Eu só queria que você soubesse que estamos juntas no breakdown e da saída dele… Aos amigos de trincheira: minha casa, sua casa! Obrigada por toda a luta! Cuide de você tá? Nos queremos vivas!

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  3. É Milly, agora só nos resta esperar o que virá de positivo nessa jornada de pelo menos 4 anos desde cidadão q cegou muitos brasileiros…Que Deus abençoe o Brasil….

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