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2018, seu lôko

Dois mil e dezoito foi o ano de uma derrota espetacular na minha vida. Perdi uma eleição para presidente e vi meu país colocar no o cargo mais alto do funcionalismo público um fascista paranoico que tem a cognição de um paralelepípedo, o refinamento de um protozoário e a sabedoria de um farelo de carvão. É com muita alegria, portanto, que me incluo orgulhosamente no time dos adversários: os derrotados, os esquisitos, os que não se encaixam, os que transgridem, os que são perseguidos, os que são espancados por serem quem são, os que são expulsos dos vagões de metrô, os que são assassinados por revelarem desejos escondidos, os que não desistem da luta, o das feministas, o das lésbicas, o das putas, o das travestis, o das trans e o dos trans.

Foi o ano em que entendi que estava cercada de anti-petistas emburrecidos por uma cólera de classe que move tudo o que dizem e fazem, mas que são incapazes de enxergar que estão tristemente aprisionados por seus ódios que não têm embasamento factual; e foi o ano em que aprendi a fazer arroz.

Foi também o ano em que me aprofundei em um relacionamento maduro, cheio de respeito e de afetos, e percebi que é possível viver uma história de amor e não morar junto – um feito enorme para lésbicas. Foi, afinal, o ano em que enlouqueci e me engrandeci de Paola, que me ocupou corpo, mente e espírito.

Foi o ano em que mergulhei em trabalhos cheios de beleza que me levaram de volta à cidade onde nasci, que tem sido desde então redescoberta e ressignificada (com a ajuda do ar-condicionado). Foi o ano em que estabeleci uma parceria de sangue com um poeta encantador que me ensina sobre o poder das palavras, do amor, da tristeza e da dor (obrigada, Tonho). E foi o ano em que chorei vendo um video de Rocco, filho da minha melhor amiga, dando seus primeiros passos na vida.

Foi o ano em que reaprendi a colocar meus pés no chão e pisar descalça na grama molhada. Aprendi a cuidar de plantas, lembrei de regá-las e entendi que elas são capazes de sobreviver a um cotidiano comigo. Foi o ano em que deixei Cora e Mila, minhas companheiras na dura batalha para renascer, testemunhas únicas de todas as noites em que chorei, me desesperei e, de joelhos, implorei ajuda, irem morar com minha ex-mulher (um pacto que tínhamos feito anos antes, quando brincávamos sobre uma separação que ambas gostariam de acreditar que jamais aconteceria).

Foi o ano em que deixei Nina entrar pela porta e, lentamente, consegui conquistá-la, ainda que para isso tenha que ter derrubado regras sólidas por mim estabelecidas há décadas, como a que proibia cachorros de dormirem ao meu lado na cama ou de subirem no sofá.

Foi o ano em que o feminismo entrou definitivamente em todas as minhas células, em que viajei para África do Sul com quatro mulheres brilhantes e revolucionárias e o ano em que sobrevivi a um show do Baiana System estando muito perto do redemoinho de gente que canta e vibra como que deixando sair de seus corpos uma energia de vida que brevemente será usada para a revolução.

Foi o ano em que li ferozmente feministas negras como Angela Davis, bel hooks, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Audre Lorde e que entendi que o feminismo é perigoso porque ele fornece as ferramentas que permitem enxergar o machismo e a misoginia de maneira muito específica e inequívoca. Foi o ano em que entendi que uma vez equipada com essas ferramentas existem coisas que você não conseguirá desver, e que, a partir desse estado de estupefação e de revolta, a única saída é agir e lutar. E que nessa hora você será chamada de chata, de exagerada, de louca.

Foi o ano em que me apaixonei pela sublime desordem de Manoel de Barros, o poeta que escova as palavras, pela retórica elegante de James Baldwin, o poeta que desenvergonha as palavras, e ano em que, com a ajuda de Baldwin, entendi que o homem branco não é um indivíduo, mas um estado de espírito e um sistema de opressão que vive também dentro de mulheres, de gays e de qualquer um que falha em não se desfazer de preconceitos e crenças internalizados por séculos de patriarcado racista.

Foi o ano em que me abençoei de Cuba, de suas praias lindas, de seu povo alegre, de sua história de encantos, dores, isolamento, incompreensão e injustiça. Ano em que, na companhia de amigas queridas, conheci um pouco de Havana e de suas delícias gastronômicas.

Foi o ano em que finalmente visitei Loli e Guelé na Alcobaça, em que entendi que nada de fundamental pode estar em uma planilha de excel, em que aprendi a confiar integralmente no mistério e a obedecer a desordem.

Foi o ano em que senti que a magia está em volta o tempo todo, até nos acontecimentos mais tristes. O ano em que me surpreendi com o alcance da minha própria voz mandando, nada educadamente, o vizinho fascista ir dar meia hora de bunda para seu mito. O ano em que fui chacoalhada com a percepção de que se você se referir a Deus no feminino uma horda de benevolentes fiéis vai jurar você de morte e que, se você insinuar que Deus é mulher, pode acabar citada, de forma nada elegante, em um certo Gospel Prime.

Foi o ano em que entendi um novo tipo de abandono, aquele que te invade quando pessoas que você ama votam no homem que quer te ver morta. E que o abandono se aprofunda quando essas mesmas pessoas justificam o voto dizendo “ele nunca vai fazer as coisas que diz” sem entender que isso já não importa tanto quanto elas escolherem votar em alguém que legitima o assassinato de pessoas como você.

Dois mil e dezoito foi, portanto, o ano em que passei o Natal sozinha, cercada por araucárias, seriemas e galinhas e que, sob o testemunho de Nina, fiz um delicioso arroz de cogumelos para minha ceia solitária, destemida e retumbantemente plena.

Foi o ano em que aprendi com Safatle que a luta política é a luta sobre formas diferentes de vida que se organizam a partir de afetos, e ano em que reorganizei meus afetos.

E, finalmente, foi o ano em que entendi que, como sugeriu Watts, a vida é uma dança e que, quando estamos dançando, não estamos tentando chegar a lugar algum, nem estamos em busca de significado. O significado da dança é a dança.

Nessa deliciosa, misteriosa, assustadora e sublime dança da vida aprendi com Lorde a mais fundamental das lições: mulheres são igualmente poderosas e perigosas.

É mesmo muita sorte ser mulher e, mais do que isso, ser uma mulher que se apaixona, se entrega e se perde em outras mulheres. Carrego em meu corpo e em meus desejos algumas necessárias revoluções.

Vem, 2019. Vem que vai ter luta, vai ter feminismo, vai ter resistência, vai ter afeto, vai ter muito sexo, muito erotismo e muito amor; para desespero dos moralistas que recentemente, acovardados pela proteção de um maníaco,-psicótico, saíram de suas cavernas de ódio e de cólera que têm o tamanho de suas caveiras. Mas eles não passarão. Porque, como lembrou meu amigo Vitor, energia só gera luz quando encontra resistência. Dois mil e dezenove vai ser, portanto, um ano cheio de luz.

10 pensamentos sobre “2018, seu lôko

  1. Olá Milly .
    Gosto muito de voce , embora tenhamos visões políticas e econômicas diferentes .
    Mas o mais importante temos em comum : Nosso Coringão !
    Vamos em frente , tenha um ótimo natal e ano novo .
    E saiba , que a diversidade também está no respeito a posições políticas diferentes .
    Um beijo para voce .

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  2. Oi Milly,
    Adoro ler seus textos, fico imaginando como deve ser sensacional sentar à mesa com você com uma cerveja bem gelada, e conversar e debater tudo isso que está acontecendo em nosso país ! Que venha 2019, apesar da minha condição ( mulher branca, heterossexual, privilegiada em muitos aspectos), será um ano de resistência !! Vamos à luta !! Parabéns pelos textos !!

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  3. Ótimo texto síntese de um ano fúnebre para qualquer brasileiro pensante e de esquerda. Foi e será difícil à frente, mas é isso: sabemos quem somos e o que queremos, mas sobretudo sabemos que #elejamais! E no próximo 2019 quero e vou a Cuba. Senti que chegou a hora. Bjos, Milly, sua potência nos fortalece, e quero ser parte dessa luz-resistência. Vera Queiroz (nada a ver com frutas cítricas).

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  4. Mas quando vc quiser ofender seu vizinho, manda ele dar a bunda não…deseje algo de ruim pra ele. Enquanto atos gays forem tratados como ofensas, a homofobia vai continuar…

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