Comportamento/Economia/Vida

O Bolsonaro em mim saúda o Bolsonaro em você

Não tenho dado conta de fazer o que, como canceriana dramática, acho importante fazer: sentar sozinha na sala da minha casa e sentir a tristeza até esgarçar todas as suas fibras para, assim, poder transformá-las em musculatura moral do caráter. Não tenho dado conta porque as tristezas estão chegando em série e não mais se permitindo lamber devidamente. Nem tinha começado a ritualizar em mim o exílio de Jean Wyllys, e o que isso significa para uma lésbica como eu que sentiu emoções fortes testemunhando o primeiro representante gay (abertamente gay, digo) chegar a nossa Capital pelo voto popular, quando vi um vídeo da lama arrastando vidas e lares em Brumadinho.

O vídeo me transtornou e dilacerou. As imagens da lama levando tudo, matando gente, plantas, árvores, peixes, gado e o que mais houvesse pela frente foram devastadoras em mim. Um ódio enorme brotou e eu não sabia o que fazer com ele. Ódio de Bolsonaro e de sua corja, ódio de quem, tendo sido escolarizado, votou nesse monstro que quer entregar tudo ao capital privado e flexibilizar ainda mais as leis que protegem o meio-ambiente, que protegem, ainda que minimamente, nossa saúde e nossas vidas. Ódio de uma sociedade que dá os ombros para os claríssimos sinais de fascismo que estão entre a gente e que justifica escolhas com “pelo menos eles não são o PT”; ódio, ódio, ódio.

Decidi sentar para meditar e me acalmar porque aquele ódio ia me consumir e a verdade é que motivos para que eu me sinta assim não vão faltar por um bom tempo: é bastante possível que tenhamos uma notícia triste-bizarra-revoltante-dilacerante por dia a partir de agora. E viver com esse tanto de ódio em mim eu não quero. Então fui meditar, depois fui ler James Baldwin e peguei no sono tentando me elevar a um lugar de mais significado com a ajuda dos anjos e dos poetas.

Acordei disposta a entender o que exatamente faz transbordar em mim tanto ódio diante da simples menção do nome Bolsonaro. Tendo as piores reações físicas já na primeira sílaba e não querendo mais sentir isso me entreguei ao exercício da busca.

O que a podridão moral que Bolsonaro faz sair de sua boca com a mesma imponência da lama que a Vale gerou em Brumadinho diz a meu respeito? Do que ela fala? O que tanto me perturba?

Bolsonaro é um espelho para nossas piores características. Com efeito, não poderia haver mestre melhor do que ele: um homem de aparência repulsiva, que não se acanha em verbalizar todas as suas sombras e miudezas publicamente, que se orgulha de ser tosco, de não respeitar a lei, de diminuir minorias políticas. Tudo nele é repugnante, e exatamente por isso Bolsonaro representa o tipo ideal de mito se considerarmos que, ao expor tão orgulhosamente tanta podridão moral, ele talvez nos ajude nessa que é a mais difícil das transformações: a nossa.

Para que pessoas boas se entreguem a causas ruins e desumanas é preciso um sistema bastante perspicaz, e é esse sistema que Bolsonaro representa melhor do que qualquer político antes dele jamais representou.

Um sistema que convença a todos que a maior das liberdades é a individual. Um sistema que convença a todos que o dinheiro é o mais valioso dos bens, e que o lucro é a mais importante das conquistas. Um sistema que diga qual a cor certa de pele, qual o tipo adequado de cabelo, qual o órgão correto para se ter no meio das pernas. Um sistema capaz de introjetar em cada um de nós ficções pelas quais morreremos e mataremos e que nos treine para acreditar que o trabalho engrandece e o ócio apequena. Um sistema que nos convença de que se não temos dinheiro é porque não nos esforçamos o bastante, e não porque não tivemos acesso a direitos e oportunidades.

Um sistema que nos doutrine a pensar que tudo o que vem do Estado é ruim e repressor, e tudo o que vem da economia privada vai nos libertar, nem que seja uma lama avassaladora que ao passar deixa o mais perturbador dos rastros. Um sistema que nos faça operar da forma mais individual possível, que nos encoraje a não olhar para os lados, que não nos permita conviver de forma misturada, que nos faça acreditar que a solução para a violência é armar a população e não diminuir a desigualdade.

Um sistema que nos dê as condições morais para viver confortavelmente com a ideia de que não vale a pena pagar impostos porque o dinheiro vai ser desviado mesmo e que taxar grandes fortunas é injusto porque, afinal, se aquele cara tem tanto dinheiro ele deu duro para chegar lá, sem nos deixar enxergar que as pessoas que mais dão duro não têm quase nada e que grandes fortunas foram erguidas sobre sonegações, evasões, corrupções e explorações.

Um sistema que ache natural abusar do planeta de forma cada vez mais rápida em nome de extrair do solo as reservas que nos dão vida apenas para que ricos fiquem mais ricos. Um sistema que distorça palavras a ponto de acharmos que se temos um emprego é porque algum bondoso empresário nos “deu” aquele emprego, sendo que quem tem alguma coisa para dar nesse jogo somos nós – nosso tempo, nossos músculos, nossas mentes.

Um sistema que nos faça acreditar que o que gera emprego são elegantes homens de pele branca, terno e gravata que passeiam pela cidade em seus carros blindados e que tiveram a incomparável coragem de abrir uma empresa para que assim possamos ter salários e, com salários, pagar os boletos para que esses mesmos homens fiquem a cada dia mais ricos. Um sistema que não nos revele que o que gera trabalho, dignidade e amor-próprio é igualdade e justiça social. Um sistema que sugira que digno é aquele que trabalha 15 horas por dia sem reclamar.

Um sistema que esconda que o que nos faz grandes é acesso às necessidades básicas, à educação, a direitos-humanos e à criatividade que é, afinal, o que nos torna humanos. Um sistema que não nos permita entender que o que gera emprego é demanda, e não a suposta bondade de um homem poderoso. Um sistema que não nos conte a verdade: que estamos dependendo da suposta bondade dos poderosos há séculos e que, até aqui, nem toda a bondade do mundo foi capaz de resolver a enorme desigualdade que nos enlameia, assola, separa e devasta.

Bolsonaro é a mais perfeita representação desse sistema. Mas ele é, como qualquer um de nós, um ser humano. Ele ama e é amado. Ele tem a capacidade de se emocionar, de se apaixonar, de se entristecer. Ele tem a capacidade de odiar, de errar, de oprimir. E ele carrega em seus gestos, em suas declarações e em suas atitudes tudo aquilo que odiamos ver que existe em cada um de nós: preconceitos, ignorâncias, arrogâncias, truculências, espertezas, crueldades, dissimulações, hipocrisias, covardias.

A verdade é que hoje não poderia haver mestre melhor em nossos caminhos do que Jair Messias Bolsonaro, e digo isso sem nenhuma ironia. Se as pessoas que se apresentam em nossas vidas têm coisas para nos ensinar sobre nós mesmos, o atual presidente tem a capacidade para ser um grande professor —  pensamento que apenas reforça a minha teoria de que a vida não erra; ela nunca erra. 

Que grande oportunidade para mergulhar em nós mesmos, matar a pessoa que um dia fomos, trazer nossas sombras e ignorâncias à luz do dia e destruir os vestígios do Bolsonaro que nos habita.

Que grande chance para nos transformar. Que grande chance para entendermos que esse sistema econômico tão perverso vai nos fazer morrer a pior das mortes: uma morte lenta, enlameada, suja, culpada, violenta, sufocante.

Um sistema que nos programa para sermos nossos próprios tsunamis precisa ser superado. Merecemos mortes melhores, merecemos vidas melhores, merecemos ser muito melhores.  

21 pensamentos sobre “O Bolsonaro em mim saúda o Bolsonaro em você

  1. Milly, só não vou dizer que você se superou neste texto porque não gosto dessa expressão, mas é brilhante. Brilhante!… E triste.
    Digo, também, que sinto no corpo isso que você descreveu diante dos mesmos motivos e da mesma pessoa.
    Eu acabo sendo repetitiva, dizendo que suas análises são lúcidas, mas é exatamente assim, pois a leitura de seus textos traz à luz meus pensamentos de uma forma que eu não conseguiria expressar, mas os traduzem. Me pego às vezes pensando que gostaria de ter à mão alguns de seus textos quando entro em alguma discussão a respeito do injusto e sórdido sistema atual, e me falta a clareza necessária para juntar os pensamentos e os colocar em palavras ali na hora.
    Lamentavelmente, o que vem por aí não é mesmo o melhor dos panoramas. Que juntemos forças para colher a flor do lodo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Faço minhas essas palavras. Obrigado por arrancar de mim o que estava entalado na garganta de muitos que não se vê representado por esse presidente posto.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Que belo texto Milly! Muito obrigada.
    Também não tenho gostado de me sentir como tenho me sentido frente à simples menção do nome desse homem. Seguimos na resistência e tentando dialogar e ultrapassar nossos limites com amor e respeito ! Muito obrigada pelo texto!

    Curtir

  4. Milly… o texto deu esperança de transformar o momento atual em força e quem sabe mudança individual e coletiva. Obrigada

    Curtir

  5. Milly sua linda! Meu coração estilhaçado feito vitral de igreja após as explosões se acalma a ler como se fossem poemas de amor as suas maravilhosas reflexões. Sinto-me tomada da dor e tem sido difícil prosseguir após outubro de 2018. Não consigo remendos mas vem você e… põe-se a criar mosaicos com os estilhaços de mim. Sim, reflito: há um bolso em mim que requer minha arte de mosaicista. Obrigada muito. Mesmo

    Curtir

  6. Milly, obrigada! Eu estava mergulhada no ódio, mas eu não quero mais me assombrar com o terror das novas notícias, não quero desejar o mal para as pessoas e me orgulhar disso. Suas palavras me trouxeram de volta. Que a gente nunca perca a verdade no nosso horizonte, e que nosso coração seja só amor.

    Curtir

  7. Nossa, que texto incrível! você conseguiu expressar tanto do que venho sentindo nos momentos recentes, nesses episódios todos que você, com maestria, descreve! Muito obrigada.

    Curtir

  8. Caramba, seus textos me desmontam, me despedaçam! Como você é boa para e pressar em palavras o que pensamos. Muito obrigada, eu não quero sentir esse ódio! Não quero não.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s