Sob o véu do cretinismo

Quando o véu do cretinismo cai sobre qualquer sociedade uma das primeiras vítimas é a expressão artística. Sempre foi assim, e dessa vez não tem sido diferente.

O cretinismo está inundando nossa civilização por todos os lados. Dorias, Trumps, Janaínas, Kataguiris… são muitos os agentes entregues ao exercício de propagar a imbecilidade, a ignorância, o preconceito, o classismo e tudo o mais que serve para nos reduzir a coisas e nos tirar vida.

O que o MBL fez com a exposição patrocinada pelo Santander Cultural em Porto Alegre com obras de Portinari, Volpi e Lygia Clark vai entrar para a história como uma das ações mais estúpidas e intolerantes pelas quais já passamos – supondo que haja registros e que sobrevivamos a esse período triste de uma história que tem sido escrita por mãos como as de Trumps e Dorias, duas expressões do mesmo tipo miúdo de politiquices e politiquetes.

A arte oferece sentido à vida e não existe para agradar sempre. O incômodo é parte essencial de obras porque apenas a partir do caos pode existir transformação significativa. “A arte compensa algumas de nossas fraquezas inatas, nesse caso mais mentais do que físicas, fraquezas que podemos chamar de fragilidades psicológicas”, escreveu Alain de Botton em seu “A Arte como Terapia”.

Mas há alternativas.

A alternativa para quem não suporta o incômodo de uma exposição de arte é não ir à exposição. Da mesma forma que a alternativa para quem acha que duas mulheres ou dois homens não podem se casar é não se casar com alguém do mesmo sexo, e que a alternativa para quem acha que uma pessoa não pode mudar de sexo é não mudar de sexo, e que a alternativa para quem é contra a interrupção de uma gravidez é não interromper uma gravidez.

Só que o cretinismo não percebe essas obviedades e só enxerga o direito à liberdade e à criatividade se ele estiver dentro uma cartilha rígida crenças religiosas. Para o cretinismo só existe liberdade se ela puder ser confinada às suas doutrinas, ao seu Deus, aos seus valores. O conceito de liberdade para o cretinismo envolve confinamento, obscurantismo, ignorância, preconceito.

É um período triste e do qual não sairemos sem profundas marcas. A ignorância está ganhando esse jogo, mas ainda podemos virá-lo. Só que para isso não podemos calar; o silêncio é um dos mais poderosos mecanismos de opressão e quem silencia faz acordo com o cretinismo.